Inimigo
O mar o chamava. Houve dias em que permaneceu horas observando a maré, ora tranquila, ora inquieta. Observava e recordava. A saudade transmutara-se em um amálgama de dor e ódio, um sentimento visceral e permanente. O mar a levara. Desde aquele dia, o mar era seu inimigo. Ele o observava remoendo a impossibilidade de vingança. A dor e ódio crescentes apenas ampliando o seu sofrimento. O mar a matara. A cada onda que quebrava na areia ele resguardava uma lágrima: chorar não a libertaria das águas assassinas. Não reviveria. Não a traria de volta aos seus braços. Ele sabia, porém, que o choro aliviaria a sua dor e isso ele não acreditava merecer. Naquele dia ele jurara a si mesmo carregar a sua dor para sempre. Ele olhava o mar e o mar parecia retribuí-lo com o olhar arrogante de quem tudo pode possuir. Ao anoitecer levantava-se e ia para casa, o cabelo e as roupas repletos de areia, a alma tão árida quanto a maresia. Em casa, a mesma rotina perversa: o banho autômato, a alimentação autoinflingida. Ligar a tevê que repetia as mesmas tragédias e banalidades do dia anterior. Outro dia que fora igual ao outro, que por sua vez repetira o anterior e... Tédio. Vazio. Dor. Ódio. Remoídos até o sono tragá-lo. Um sono sem alívio, sem perdão... Dormia um sono imerecido até ser acordado pelo mesmo sonho em que ouvia a voz dela, chamando-lhe. E como sempre acontecia, acorria à janela no desejo absurdo de que ela tivesse voltado. Procurava por ela até perceber a loucura daquilo, duvidando da própria sanidade e retornando ao sofá, exaurido. A tevê ligada transmitindo ruídos e distorções até o amanhecer de outro dia amargo em que conduzia-se como um títere. Era assim todos os dias até o momento de, novamente, sentar-se em frente ao mar e odiar o marulhar despreocupado de suas ondas enganando o tempo; a dor e ódio dele intensificando-se e corroendo a sua sanidade. E o mar apenas fitando seus olhos rancorosos até o derradeiro pestanejar ao anoitecer. A areia sacudida ao vento. O banho. A comida. A tevê. O sono. O sonho. O mesmo sonho. Mas não hoje. Hoje ele tinha certeza de que era a voz dela que o chamava. Ele sabia que hoje ela enfim retornara para ele. Correu ao encontro dela. Entre a areia causticante e as lágrimas saudosas enfim permitidas, ele a viu: viu os seus braços convidativos, os seus cabelos ondulantes, o seu sorriso. Ah! O sorriso dela! O sorriso que nenhuma outra mulher possuía. Beijou-a desesperadamente e, olhando nos olhos dela, jurou nunca mais deixá-la partir. Ele a abraçou, a abraçou como se abraçasse o seu próprio ser, como se abraçasse a sua própria vida. Sorrindo-lhe o seu sorriso mais belo e em seu abraço mais amoroso, o inimigo finalmente o levou às suas profundezas.
