Por Danilo Pelloso
O cinza permanente aliado com um sol tímido, encolhido e escondido entre as nuvens que formam figuras alegóricas na imaginação criativa de uma criança que olha, apontando o pequeno indicador para que possa ver as emoções do seu grande mundo, em esplendor.
Retribuo a generosidade com um sorriso, tranquilo, o carinho que inexiste a pressa em sair do contraste rosto entre pálido e brilhante.
A criança solta sentimentos discretos, sinceros, sempre com a esperança de continuar na concordância.
Apontando novamente com o pequeno dedo diz-me que o desenho mudara. Agora parece mais um ursinho, daquele que fala e escuta. O melhor amigo para os pequeninos.
Conversas. Observações.
Olho a pequena criança e com sentimentos de perda, mas complacente vou embora para adentrar no meu mundo, não de flores, nem rumores agradáveis.
A estadia.
Naquele hotel sombrio, antigo e imperioso é que vivo um pequenino trecho da minha existência, que transfigurasse relativo por inexistir o conhecer da longevidade do meu próprio ser.
Uma semana que não passará facilmente. Uma semana que lembrarei eternamente.
Poderia estar em outro lugar? No destino o verdadeiro livre arbítrio. Poderia ficar observando a criança a fazer desenhos nas nuvens, mas algo me atraia para aquele local.
Casarão antigo. Marcas dos tempos passados, aflitos, consagrados, vividos. Arquitetura exemplar. Alvitre do século vinte.
Dos adornos da arte barroca ao próprio surrealismo esculpidos nas paredes, nas colunas o próprio destino.
As louças todas decoradas e majestosamente talhadas por um grande artesão de descendência italiana, cuja essência esta nas evidências do trabalho realizado.
Confeccionado em prata envelhecida, e escurecida pelas energias não bem vindas, que permanece naquele local místico, oculto e doloroso.
A prata não irradia beleza. Coberta por uma fina camada escura, de um negro viscoso que apaga seu próprio encanto, antes misterioso.
Acima de um luxuoso conjunto de cerâmica esta o formoso relógio de corda. Estagnado a meia noite. Marca simplesmente a morte do senhor Josef. Do inexplicável a razão do próprio ato.
Morte.
Senhor Josef sempre fora uma pessoa incoerente.
Nas realizações desumanas estava a sua força motriz que o movimentava por entre paredes obscuras e úmidas, de um musgo verde fétido misturado com sangue fresco com odor adocicado e putrefato.
A sociedade ocultava-se de si a própria verdade.
Adorador do enigmático. Do conhecimento oculto. Da obscuridade.
Pai de um menino que semelhante a uma avalanche em montanhas gélidas do ártico, fora apresentado ao mundo espiral de emoções destrutivas.
Discordara da própria existência. Das grandes paixões mundanas o seu próprio desalento. Queria ser grande como o mar, brilhante como o sol e necessário como o ar.
Impedimento do desenvolvimento espiritual. Resta-se apenas o próprio ressentimento.
A própria família. A própria estadia. Tudo igual. Tudo tradicional. Da similaridade a essência da inverdade. Inexistem mudanças.
Manifestação do sublime ser encarcerado no seu próprio pensar.
Homem ríspido, vitimado na própria ignorância. Do ego exacerbado a desesperança de seus atos.
Dona Josef, na inocência a própria morada. Possuidora de um semblante simples, singelo e afetuoso. Complacente com todos.
Expressão da paz frente ao conturbado mundo de emoções corriqueiras. Dona Josef, não tinha denominação própria. Conhecida simplesmente como esposa daquele traste de outrora.
Família tradicional. Dos conflitos clássicos de Josef, o verdadeiro irracional.
Na rigidez das tradições, a chave para as lamúrias dos jovens corações. Seu filho. Criança crescida. Um moço consentido. Estimado coração. Com a mente transtornada de destrutivas emoções a mesma estava.
A dor humana sentida está fundamentada na angústia do conhecimento humano vivido.
O exemplo.
Perece jovem. Moléstia capciosa. Na morte do eu físico a própria libertação do eu metafísico.
Sangue em retalhos de uma vida vivida em farrapos, sofrida.
Todos mortos os que ali estavam com suas imagens em seus respectivos quadros, a contemplar a parede macia de barro.
Pareciam sorrir para mim ao adentrar naquele lugar cuja única presença fora a ausência de coerência.
Casarão.
Grandes corredores iluminados, com candelabros. Do verde imaturo da luz irradiante, aos campos verdejantes que reluz, mas não naquele lugar imundo.
Corredor sujo de sangue fresco. Corredor em lamento. Choram as crianças a estar, um choro triste escutados no murmúrio do silêncio.
Fragrância fétida de carne incinerada. Não há incenso. Não há nada.
Nos quartos haviam duas camas confeccionadas em madeira de lei com suas cabeceiras adornadas, contando de maneira abreviada, momentos religiosos como a batalha entre o céu e o inferno. A batalha entre o eu físico na dualidade com o eu metafísico. Na busca do equilíbrio.
Observo os quadros e vejo imagens de campos em preto e branco. Não são os mesmos campos verdejantes que os pássaros estão a cantarolar a todo o instante, em meu pensamento antes vibrante.
Campos frios com homem armados. Homens vestidos de uniforme suntuosos a postarem de forma majestosa. Poses de atitudes indecorosas.
Campos cinza, de uma névoa escura de tormentas. A fuligem enfeita todo o ambiente. A fuligem o sustenta.
Era essa a imagem ao adentrar naquele casarão tradicional do Dr. Josef.
Volto as minhas reflexões. Imagens vêm a minha mente.
Pessoas trabalhando descontente. Trabalho compelido? Batente afável? Aprisionados dentro das muralhas da morte.
Gritos.
Máquina da morte. A cinza. Ambiente triste de fuligem. Sinto a fuligem desabar em meu rosto. Incompreensível situação. Novamente experimento a fuligem ruir em meu rosto. Quanta tristeza, quanto desgosto.
Noites em claro, passadas naquela estadia. Da preocupação do trabalho aos ruídos que ouvia.
Lembranças a todo o momento. Instantes que mesmo não vivenciado fora experimentado por mim naquele lugar suntuoso, mas que escondia um passado tenebroso.
Sentiam-se vibrações. Na estória o próprio enigma. Na presença atípica da energia imaterial, a descoberta da estória encoberta.
Sentimentos bons ou ruins? Inexistem inferências, apenas o fato do sentir.
O casarão gemia. As portas em ruídos. Janelas fechadas abriam. Murmúrios, sussurros, lamentos. Sentia-se a presença em descontentamento. Atrocidades acometidas?
A casa estava viva. Pronta para ser vivida.
Necessitava deixar aquele local indesejado. Meu corpo trepidava ao adentrar em seus aposentos.
Do declínio do sol, enfatizando o luar tímido e tênue, lamentando a ausência de compreensão.
Chegara à noite.
Escutava uma voz que ecoava pelo corredor a fio, gélido e sem cor. Uma voz. Uma mescla de sentimentos de ódio com clemência.
Chamava-me pelo nome. Não era apenas pelo primeiro, fazia questão de chamar pelo nome inteiro.
No entardecer meu próprio desespero.
Noites e noites em claro observando a mesma cena em frangalhos.
Flashes de um pesadelo.
Cortinas sacudindo, murmúrios iludindo, sorrisos de dor e sofrimento sentidos. Encontrava-me recolhido no canto do aposento, cujo meus sentimentos se expressavam unicamente pelo ato de cobrir o semblante com um lençol velho, degradante.
Ouvidos tampados. Os sons não eram audíveis. Estavam sintonizados com meu eu mental alterado por toda aquela intensa energia psíquica ao meu lado.
Criador ou criatura do próprio medo?
Deixara-me confuso.
Acordara de madrugada, horário apropriado para a liberdade do funesto de uma vida em vicissitude.
Retire-me do quarto para verificar o que estava acontecendo ao lado.
O corredor. Apertei o interruptor. As luzes verdes não acendiam. Dificuldades, como todas as outras nuancem daquele velho e obscuro casarão.
Problemas era o que existia naquele local inóspito. Elétricos, hidráulicos e agora incorpóreos.
Qual a verdadeira estória daquela do casarão que outra hora poderia ter sido tudo ou mesmo nada?
Havia algo de estranho naquele local. As imagens estampadas nos quadros presos a parede apresentava o casarão como um local marcante na história.
O ambiente estava frio e sentia-se uma atmosfera formada por densas nuvens cinza de um ambiente sombrio com odor adocicado de sangue fresco.
A recordação da fuligem vem a minha mente. Perseguido pelos próprios pensamentos.
Naquele local havia algo de errado que eu mesmo desconhecia. As luzes apagavam e acendiam. Num tom ritmado de acender e apagar, da própria brincadeira esquisita, o meu sofrimento estaria.
O momento.
Naquele corredor ameaçador, ganhando forma de um homem trepido de cabelos curtos, olhos negros, com face pálida, vestindo um uniforme em desuso, acompanhado de insígnias.
Mãos a manipular um objeto.
Aos passos lentos, com um sorriso no rosto, sombrio, tenebroso.
As luzes verdes acendem e apagam. Piscando numa frequência ritmada dos passos compassados do vulto que trepida, chegando cada vez mais perto de onde eu estaria.
Quem é aquele velho homem? Teria tempo para responder essa indagação?
O ser estranho não tocava o solo. Flutuava.
O vulto a cada minuto aproximasse de mim. Trepidando no ritmo das luzes, sempre acima do solo, flutuando, no mesmo não tocando.
Imagem atormentada de uma situação inusitada.
Não falava, não andava, levitava. A cada minuto se aproximava. Sorrindo com um objeto nas mãos, vinha na minha direção. Da própria consciência esquecida, mas agora requerida.
Escutam-se vozes. Ruídos, murmúrios.
Gargalhadas.
Com um rosto pálido, sem tinta a ser gasta, paralisado estou, no meio ao corredor, com aquele ser do outro mundo num contraste do branco pálido do rosto com o negro da roupa em desconforto.
Estou amedrontado. Sempre acreditara nos seres incorpóreos, mas nunca tive o desprazer do convívio dos que me atordoam.
Encaro aquela figura que é a causa da minha própria dor.
Todo vestido de preto. Negro fúnebre. O cheiro da morte se aproxima.
Na alternância das luzes verdes o vulto estava cada vez mais perto. Da macabra veste aos sorrisos que circunda a ironia e o sarcasmo. Do vulto incerto a personificação do próprio anjo da morte.
Trepidando em minha direção.
Com o coração exacerbado de destrutiva emoção, fazendo circular em minhas veias o sangue da profunda incompreensão.
Afastei a passos lentos. Quanto mais afastava, mais o vulto perto de mim se aproximava.
O que seria? Não ha tempo de pensar, apenas o sentir.
O vento continuava a assobiar um som desarmônico de dor e desesperança. No cantar da ave noturna o próprio destino. Era o principio e o fim dos meus tormentos.
Janelas, portas batendo, abrindo e fechando como forma de aviso da inexistência de algo além desse mundo, em desalento.
Nas paredes o sangue escorria. Uma pintura artística. A realidade se aproximava.
No sótão ruídos, nos porões lamentos. Na sala gargalhadas de pessoas em contentamento. No corredor a aflição de vivenciar o desconhecido.
Ensaio metafísico?
Na sala.
Algazarra da burguesia. Todos vestidos a caráter. Dos vestidos da duquesa, a majestosa vestimenta da rainha. Vinhos, champagne.
Os cavalheiros com seus uniformes militares mostrando toda a vitalidade.
Havia apenas algo em comum em toda a situação.
As pessoas eram possuidoras de uma cútis aveludada pálida, branca, sem tinta, sem graça, sem esperança na própria raça.
Mesmo estando no século vinte e um, as pessoas pareciam viver em outra época, mais precisamente na década das grandes guerras. Dos conflitos armados a comemoração dos grandes soldados.
Estaria eu alucinado?
Meu rosto começa a ficar pálido. Estou mudando. Transformando. A vestimenta é substituída por um uniforme militar.
Os quadros estão todos em branco. Onde estariam às pessoas dos quadros de antemão? Estavam dançando naquela grandiosa comunhão.
Da tranquilidade diária a macabra ocasião noturna.
Não conseguira dormir naquela estadia. Rouba-me a vitalidade.
Lembranças vêm ao meu consciente, de toda aquela situação: da perseguição do vulto no corredor, a dança de todos aqueles mortos em esplendor.
Chego a pensar que seria mera coincidência, ou eu estaria morto na própria essência?
Sou como os outros. Naquela dança fatídica estou eu a dançar. Com o quadro em branco na parede a estar. Na cor sem graça da face pálida a verdadeira infelicidade da própria raça.
Não sei o que dizer e ao menos o que pensar. Sei que na dança com os mortos não quero mais participar.
Dona Josef, por favor, veja quanto eu devo para que neste lugar não tenha mais o desprazer eu de estar.
Dona Josef desfazendo seu corpo agora incorpóreo de uma fumaça densa de névoa escura, despede-se de mim sorrindo e murmurando não ser possível deixar a estadia porque lá seria a minha morada de todos os dias.
Surge uma menina toda vestida de branco, flutuando, com um vestido arrastando no chão.
O arcanjo.
Convida-me a adentrar o mundo das lembranças. Respondo que não. A menina, com sorriso em seu rosto, desaparece juntamente com a minha esperança.
Não consigo compreender. Estaria eu alucinado? Seria apenas um entre os mortos?
Dançando com os soldados, oficiais, com o mesmo rosto pálido, sem tinta, sem graça, sem nada. Apenas mais um entre os demais.
Apenas um pedido.
A permanência do meu quadro cravado na parede, para estar no local onde sempre deveria estar juntamente com os meus ancestrais.
Local incerto para a pessoa certa. Dos fatos acometidos nos campos não floridos a permanência no próprio martírio.
Nunca conseguira sair daquele local funesto e degradante. Acostumasse. Todas as noites, eu manifesto com gargalhadas me apresento.
O que era tenebroso tornou-me de bom gosto. Tudo depende da ocasião.
Novos visitantes. O mesmo vou convidar para o mesmo continuar na estadia morar.