A casa de bonecas


Por Thiago Tavares

Casos de desaparecimento acorrem, rotineiramente, ao redor de todo o mundo e, no Brasil, não é diferente. Por aqui, cerca de 40 mil crianças e adolescentes desaparecem por ano e, aproximadamente, 10% a 15% desse total de jovens permanecem com o paradeiro desconhecido. Uma triste estimativa que atinge famílias de todas as classes sociais do país.

A Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPECA) recomenda que em casos de desaparecimento, o primeiro lugar onde devemos procurar são os arredores do local no qual o indivíduo supostamente sumiu. A polícia aconselha também que seja realizada uma rápida busca pelas delegacias de polícia, hospitais e pronto-socorros, além de registrar um boletim de ocorrência informando à DPECA ou ao Conselho Tutela sobre o desaparecimento do jovem. Embora algumas pessoas desconheçam, não é necessário esperar 24h para registrar o boletim de ocorrência, pois ele pode ser feito a qualquer momento. As primeiras horas que sucedem o sumiço são essenciais para aumentar as chances de sucesso na localização e proteção do desaparecido.  

Renata, funcionária pública do estado, moradora de Linhares, realizou todos esses procedimentos para tentar localizar sua filha, de apenas 8 anos de idade, mas, até hoje, a pequena Isabela faz parte do percentual de jovens do Brasil que continuam desaparecidos. A estória que vou lhes contar aconteceu no ano de 2007, em Espírito Santo, e versa sobre um sinistro caso de desaparecimento.

Era final de tarde quando Renata olhou para o relógio, pendurado sob a porta, e respirou aliviada. 18:30h era o que os ponteiros indicavam. Rapidamente, ela guardou seus pertences, desligou o computador, se despediu dos colegas de trabalho que iriam fazer hora extra e então desceu as escadas do Tribunal de Justiça. Graças ao horário de verão o dia ainda estava claro e a rua, Alair Garcia Duarte, bem movimentada. Fatores que motivaram Renata a regressar, a pé, para casa. Normalmente voltava de ônibus, no entanto, não era nenhum sofrimento percorrer, na caminhada, a distância de pouco mais de três quarteirões.

Ao longo da calçada, vendedores ambulantes e vitrines de loja apresentavam suas promoções de fim de ano e Renata acabou resolvendo fazer umas comprinhas (A famosa terapia de relaxamento que as mulheres costumam realizar quando tem um dia difícil). Entrou numa loja de calçados que tinha um enorme letreiro onde lia-se: Liquidação no interior da loja. Após uns 30 minutos, a funcionária do estado, saiu de lá carregando uma bolsa onde continha dois Scarpins e uma sandália rasteirinha. Perceptivelmente, sua fisionomia era outra. Já nem lembrava mais a mulher que tivera um dia de trabalho sobrecarregado. Renovada ela seguiu adiante e não pretendia comprar mais nada, contudo, ao ver a loja de antiquários do senhor Gilberto ainda aberta, não resistiu e entrou, relembrando que fora, Humberto, seu saudoso avô quem a ensinara a apreciar objetos antigos.

– Boa noite, senhor Gilberto! – cumprimentou após passar pela porta. – O que tem de novidade?

O senhor que, sentado atrás de um balcão, tentava concertar um rádio vitrola, não resistiu e então respondeu:

– Desculpe, mas se quer novidades, você esta no lugar errado! – Isso aqui é uma loja de antiguidades! – brincou ele com um enorme sorriso no rosto ao ver quem entrava em sua loja. – Olá minha querida! – disse ele, em seguida, largando de lado o que fazia. – Como vai a minha freguesa predileta?   

Renata sorriu.

– Vou bem, obrigada!

– Já faz alguns dias que não a vejo!

– Pois é senhor Gilberto! Estou tendo uma semana difícil no trabalho... você sabe como é!

– Eu entendo! – respondeu o velho feliz em vê-la novamente. – Venha comigo! Vou lhe mostrar os produtos que chegaram ontem pela manhã. – Tem uma mesinha, redonda, de centro que acho que você vai amar!  

Renata seguiu, animada, aquele senhor, de andar vagaroso, até atingir os fundos da loja onde lhe foi apresentado às mobílias antigas que haviam chegado, no entanto, foi algo diferente que chamou sua atenção. Uma casa de bonecas, ricamente detalhada, que estava sobre uma estante de carvalho.

– Que linda! – exclamou ela, encantada.  

– Concordo plenamente. Essa é uma mesa muito rara! – respondeu Gilberto acreditando que sua cliente falava da mesinha, de centro, que ele apresentava. – O que mais me impressiona é o excelente estado de conservação que essa peça do século XIX ainda ostenta e...

– Desculpe senhor Gilberto, mas eu me referia sobre aquela casa de bonecas! – interrompeu Renata, já sabendo que se não fizesse isso iria ouvir, por um bom tempo, a história sobre uma mesinha de centro.  

– Ah! Por que não disse logo?! – inquiriu, meio sem jeito, indo até a estante de carvalho. – Venha! É ainda mais bonita de perto.

Renata obedeceu.

– Nossa! – balbuciou ela olhando, pelas janelinhas, o interior da casa repleto de bonecas.

– Parece até uma casa de verdade, não acha?

– Sim. Os detalhes são incríveis! – respondeu admirada. – Sempre quis ter uma dessas quando criança, mas meus pais nunca puderam comprar uma para mim... era muito caro para o curto orçamento de nossa família.

– Bom, nunca é tarde para realizar um sonho!

– Não senhor Gilberto... eu já estou muito velha para essas coisas, entretanto, acho que posso dar essa alegria a outra pessoa.

– À pequena Isabela, eu suponho! – arriscou Gilberto.

– Exatamente!

– Pois eu acho que ela vai adorar!  

– Espero que sim! – Quanto custa?

– Ainda não estipulei um valor! Eu a recebi, ontem à noite, de um antigo cliente, colecionador de antiguidades.

– Hum... entendi! – Que tal R$ 100,00?

– Não era bem o preço que eu tinha em mente, mas acho que posso fazer essa promoção para uma cliente como você! – disse Gilberto apanhando a casa de bonecas para colocá-la numa caixa.

Conversando trivialidades, os dois retornaram para o balcão da loja e ali fecharam negócio. Renata entregou o dinheiro e já se despedia quando foi tomada por uma, súbita, curiosidade:

– Diga-me senhor Gilberto! – Por que motivo esse seu antigo cliente, colecionador, se desfez de uma casa de bonecas tão linda como esta?

– Ele não tinha mais motivos para tê-la! – respondeu o velho meio pesaroso em dizer aquilo. – A filha dele desapareceu há pouco mais de três anos.  

– Nossa! Que trágico!

– Sim! O nome dele é André. Além de meu cliente é também um grande amigo e acompanhei de perto seu sofrimento. Desesperado, com o sumiço da filha única, chegou a pensar em se matar, mas, felizmente, André aceitou meu convite e entrou para uma religião que esta fazendo muito bem a ele. Esta aprendendo a lidar com a dor e, finalmente, criou coragem para entrar no quarto que era da menina. Aos poucos ele esta se desfazendo dos objetos que podem ter serventia para outras crianças.

– Eu não o conheço, mas, por favor, senhor Gilberto, dê meus sentimentos a ele. Não consigo nem imaginar qual seria a minha reação se algo parecido acontecesse com Isabela.  

O telefone da loja tocou e Gilberto, pedindo a Renata que aguardasse alguns instantes, interrompeu a conversa para atendê-lo. O telefonema parecia ser a respeito do rádio vitrola que estava sobre o balcão e que ainda não havia sido consertado. O diálogo ao telefone se estendeu e Renata, incomodada com a espera, olhou em seu relógio de pulso que já indicava 20:00h. Decidiu então que iria para casa e acenando para Gilberto, que explicava ao cliente os motivos pela demora no reparo do aparelho, prometeu que voltaria outro dia para que pudessem continuar a conversa.  

Levando, numa das mãos, uma bolsa de sapatos e, noutra, a caixa contendo seu sonho de infância, Renata deixou a lojinha de antiguidades. A casa de bonecas era pesada, mas como o antiquário era na esquina de sua rua, não foi preciso suportar o esforço por muito tempo. Chegou a casa, abriu a porta e viu sua empregada andando, de um lado para o outro, com o telefone sem fio nas mãos.

– Renata! – exclamou ao ver a patroa entrar. – Estava preocupada! Tentei te ligar, várias vezes, mas esta caindo na caixa postal! – Aconteceu alguma coisa?!   

– Não Gabi, está tudo bem! – Desculpe não ter avisado que iria chegar mais tarde, mas é que resolvi, de última hora, fazer umas comprinhas. – explicou Renata colocando a caixa e a bolsa sobre a mesa da cozinha. – Devo ter esquecido meu celular no trabalho... estava com tantas coisas na cabeça que nem me atentei para isso. – Cadê a minha filhota?

– No quarto, assistindo desenho animado.

Isabela, gargalhava, assistindo Tom e Jerry, quando sua mãe adentrou no quarto trazendo a caixa que logo fez a menina esquecer a TV.

– O que é isso, mamãe? 

– Um presente para você! – respondeu Renata com um enorme sorriso, de mãe coruja, nos lábios.

A menina ficou encantada ao abrir a caixa e ver a linda casa de bonecas que estava contida ali dentro. Irradiando felicidade, pediu para que sua mãe a deixasse chamar a amiguinha Geovana para brincar. Renata olhou no relógio e considerou que ainda não estava tão tarde para sua pequena vizinha fazer uma visita. Após receber a autorização, Isabela disparou em direção ao primeiro andar e apanhou o telefone.

– Alô!

– Olá senhora Bianca! Aqui é a Isabela.

– Oi Isabela! Tudo bem?

– Tudo! Estou ligando para perguntar se a Geovana pode vir até a minha casa para brincar comigo com o presente novo que minha mãe me deu!   

– Você tem um presente novo?! – E qual é? – perguntou Bianca achando graça na maneira educada como a menininha se expressava.

– Uma casa de bonecas! E já vem com um monte de bonecas dentro!

– Nossa, que legal! – Vou levar a Geovanna até aí para vocês brincarem um pouquinho, mas é só um pouquinho mesmo, por que amanhã vocês duas tem que ir para escola, bem cedinho.

– Obrigado, senhora Bianca! – agradeceu, desligando o telefone, em seguida.

Ansiosa para brincar Isabela correu de volta para o quarto e aguardou pela amiguinha. Não demorou muito e a campainha tocou. A empregada abriu a porta e pediu para que Bianca e sua filha entrassem. Renata desceu as escadas e disse a menininha, de cabelos cacheados, que Isabela a aguardava em seu quarto. Imediatamente Geovana subiu desejando ver a casa de bonecas que sua amiga havia ganhado.

Bianca e Renata ficaram na sala, colocando a conversa em dia, enquanto as meninas se divertiam no quarto.

– Olha a roupinha dessa aqui! – exclamou Geovanna, observando as vestes modernas daquela bonequinha.

– E essa aqui! – parece até as roupas que vovó costuma usar! – disse Isabela, mostrando uma que usava vestidinho no modelo dos anos 60.

– Elas parecem ser de verdade, não acha?

– Parecem mesmo! – respondeu Isabela observando os traços perfeitos que as bonecas possuíam. – Eu quero ser essa! – disse ela em seguida escolhendo aquela que considerou ser a mais bonita.       

– E eu vou ser essa! – disse Geovana, por sua vez, apanhando outra.

As duas meninas ficaram a brincar, por cerca de duas horas, até que Bianca, lá de baixo, chamou sua filha para ir embora. Geovana pediu que ficassem um pouco mais, contudo, seu pedido foi negado, pois já estava muito tarde. Sem alternativa a garotinha então se despediu da amiga e prometendo voltar no dia seguinte, partiu ao lado da mãe. Renata então mandou que Isabela se preparasse para dormir. Em poucos minutos a menina já estava, vestida com seu pijama listrado e deitada sobre a cama, esperando o beijo de boa noite de sua mãe.

Renata entrou no quarto, sem bater, cobriu a filha com um lindo cobertor de estrelinhas e em seguida a beijou, carinhosamente, sobre a fronte.

– Boa noite, filhota!

– Boa noite, mamãe!

Deixando a porta entreaberta para que a luz do corredor confortasse a menina que ainda não estava acostumada a dormir no escuro, Renata saiu, indo para seu quarto onde desabou, pesadamente, sobre a cama e dormiu como uma pedra. O mesmo não aconteceu com Isabela que custou a dormir. Envolvida pela penumbra de seu quarto ela admirava o novo brinquedo enquanto suas pálpebras iam ficando cada vez mais pesadas. Quando finalmente já estava quase dormindo ela viu uma das luzes da casa de boneca se acender e, imediatamente, a menina se sentou sobre a cama esfregando os olhos. “Como isso é possível?!” pensou ela desacreditada do que via.

Saiu da cama e, pé ante pé, foi se aproximando da pequena casa que tinha uma pálida luz saindo da janela da sala. Assim que chegou perto o suficiente, tomou um susto, pois todas as bonecas que ela, cuidadosamente, tinha colocado nos quartos agora se encontravam, na sala, reunidas ao redor de uma mesinha. No exato instante em que viu essa cena, Isabela foi bombardeada com o som de inúmeras vozes de meninas pedindo por socorro e, apavorada, protegeu os ouvidos com as mãos. Dominada pelo medo, correu em direção a porta, entreaberta, para chamar por sua mãe, no entanto, a porta se fechou, bruscamente, antes que ela pudesse sair. Gritando Isabela pediu por socorro, mas, misteriosamente, sua voz parecia não sair daquele cômodo. Em meio ao desespero ela teve a viva impressão de que a luz da casa de bonecas ficava cada vez mais forte. Uma claridade intensa ofuscou seus olhos e, após isso, os gritos cessaram.

No dia seguinte, ao som de seu fiel despertador, Renata acordou e, como fazia todos os dias, foi até o quarto de sua filha chamá-la para se preparar para a escola. Como não a encontrou, percorreu todos os demais cômodos da casa. No primeiro andar, acordou a empregada perguntando pela filha, mas a pobre mulher não sabia de nada.


 Completamente nervosa, a mãe da menina apanhou o telefone e ligou para a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente. Como eu havia dito, anteriormente, Renata cumpriu todos os procedimentos necessários para tentar encontrar a filha que havia desaparecido, sem deixar rastros, mas, até hoje, Isabela continua fazendo parte do percentual de jovens desaparecidos do Brasil. Ninguém jamais atentou para a nova bonequinha, de pijama listrado, no interior da casa de bonecas.  


Leia Mais...

A dama do lago


Por Thiago Tavares

Correndo feito um louco, Eduardo tentava se afastar do lago de onde podia ouvir os gritos, desesperados, de seu amigo, sendo arrastado pela assombração. Durante a corrida, vez ou outra, escorregava, caindo sobre a lama fofa, mas, logo em seguida, tornava a se levantar e, sem olhar para trás, disparava a correr novamente. Com passadas largas, tentava alcançar à ponte de acesso a entrada da cidadezinha onde morava. Era lá que haviam deixado o carro estacionado. Seu meio de escapar daquela coisa.

Quando, finalmente, atingiu a ponte já não ouvia mais os gritos de Daniel e, apressadamente, abriu a porta do Santana, dando Graças a Deus por seu amigo haver deixado a chave na ignição. Deu a partida e pisou no acelerador deixando para trás aquele lago maldito onde Daniel nunca deveria ter parado. Com o medo que estava sentindo, nem percebeu que dirigia na mão errada e quase bateu contra uma caminhonete que vinha na direção contrária. Foi preciso uma manobra brusca para desviar e, por pouco, o carro não capotou. Com os olhos arregalados, Eduardo olhou, pelo retrovisor, para ver o veículo que, por um triz, não colidira e empalideceu de medo. Sentada no banco traseiro, estava à mulher pútrida que, vestida num traje esfarrapado, o observava com um sorriso maligno.

Não houve tempo para qualquer reação. As mãos daquela criatura, em decomposição, agarraram seu pescoço e, dotada de uma força descomunal, começou a enforcá-lo. Eduardo já sentia o ar faltar em seus pulmões quando acordou, em sua cama, assustado e com o corpo ensopado em suor. 

– Não aguento mais isso! – exclamou ele, ascendendo a luz do abajur e levantando-se da cama para apanhar o maço de cigarros que havia deixado no bolso da calça que largara pelo chão. Precisava fumar.  

Com um cigarro pendurado na boca e vestindo somente uma cueca Boxer, amarelada, que, certamente, já havia sido branca, Eduardo foi até o criado mudo e, com as mãos tremulas, pegou seu isqueiro Zippo, acendeu o fumo e após, uma boa tragada, conseguiu tranquilizar um pouco. Olhou no relógio que marcava 3 da manhã e praguejou Daniel, pelo medonho pesadelo que até hoje o atormentava. Já estava em seu segundo cigarro quando olhou, de relance, para o espelho, embutido no guarda-roupa, e viu marcas, estranhas, em seu pescoço. Chegou mais perto e verificou serem marcas de estrangulamento. Com o coração descompassado Eduardo então deixou o quarto em direção a sala onde apanhou, de seu mini-bar, uma garrafa de Natu Nobilis e iniciou a tomá-la no gargalo. Seus pesadelos ficavam cada vez mais reais e isso era, extremamente, aterrador.   

Com a garrafa em mãos, Eduardo foi até o sofá, apanhou o controle remoto e ligou a TV, passando os canais sem o menor interesse pelas programações. Estava apenas preocupado em manter-se alerta. Não pretendia dormir novamente. As horas se passavam, lentamente, e a garrafa de uísque que, até então, nunca havia sido aberta, agora já estava pela metade. “Já faz tanto tempo!” pensava enquanto continuava mudando os canais.

– Isso tudo é culpa sua, Daniel! – murmurou com a voz típica de um homem embriagado. – Não precisava ter parado o carro lá, mas você parou! – Por que foi tão estúpido?! – continuou como se conversasse com o velho amigo que já havia morrido há anos. – Espero que esteja no inferno, seu desgraçado! Você roubou minha paz! – vociferou ele, arremessando contra a parede, a garrafa já quase vazia.

Dominado pela raiva, fumou mais um cigarro, depois outro e um terceiro que só então conseguiu fazê-lo voltar à calma. Ao longo dos anos o fumo havia se tornado seu calmante e, boa parte, de seu dinheiro ia embora com maços e mais maços que necessitava comprar para se tranquilizar. Seus nervos estavam sempre à flor da pele, pois, diferentemente, da maioria das outras pessoas, Eduardo não conseguia dormir em paz. Suas noites de sono eram sempre interrompidas pelo mesmo pesadelo. Fato que o transformou num sujeito mal-humorado que, pouco a pouco, viu todas as pessoas a sua volta se afastarem. Estava sozinho e envolvido por tormentos. Seu desespero e cansaço se converteram em lágrimas e o homem, já desacreditado de se ver livre daquele sofrimento, iniciou a chorar.

Após muito haver chorado, Eduardo, sentindo as pálpebras pesando de sono, enxugou os olhos e viu que o relógio, sobre a estante, já marcava 5:45 da manhã. Faltava pouco mais de uma hora para ter de começar a se aprontar para o trabalho. Estava um caco e sem ânimo algum. Já não era mais capaz de suportar aquela guerra contra seus medos e decidiu se render. Levantando do sofá, ele foi até o rack e abriu uma pequena gaveta de onde retirou o recorte de uma manchete de jornal que vinha guardando consigo.  

– Quer me pegar sua miserável? – indagou olhando para aquele pedaço de papel velho. – Pois então venha! Eu não vou mais fugir de você. – concluiu voltando para o sofá, onde se deitou. Os olhos começavam a se fechar quando resolveu fazer uma última coisa.

De todas as pessoas que haviam se afastado de sua vida, seu filho era o que mais lhe fazia falta. Eduardo sentiu que precisava se desculpar e assim ele fez. Apanhou o telefone, sem fio, e discou o número que ainda se lembrava de cor. Era 5:50h quando Pedro Henrique acordou com o telefone tocando.

– Alô! – disse ele ainda zonzo de sono.

– Pedro!

Um breve silêncio se fez.

– Pai?!

– Desculpe por tudo, meu filho! Não fui um bom pai e também não fui bom em mais nada... sou apenas um homem cansado da maldição que carrega! Ela me viu e não importa o quanto eu fuja, nunca vai desistir de me perseguir! – Perdoe-me filho... perdoe-me...

– Pai! O que houve?! – Do que você está falando? – perguntou Pedro, levantando da cama, preocupado, com o tom de voz, choroso, do pai com quem não falava há anos. Todavia não houve resposta. Eduardo Já havia desligado.

Percebendo não haver mais ninguém do outro lado da linha, Pedro largou o telefone, vestiu uma camisa amarrotada, colocou uma bermuda qualquer e, apanhando as chaves do carro, saiu de casa. Enquanto isso, distante dali, Eduardo, permitindo que seus olhos se fechassem, deixava-se vencer pelo sono. Dali em diante, foi questão de tempo para seu tormento recomeçar.

Em poucos instantes estava revivendo a cena que ocorrera em 1988, no Maranhão, quando ele voltava de uma festa, no meio da madrugada, de carona com Daniel que resolveu parar o carro, para ajudar uma mulher que vira vagando com um vestido branco esfarrapado e manchado de sangue. Em seu repetitivo pesadelo, Eduardo ouvia os gritos de seu amigo sendo puxado para o interior do lago pela assombração que ele havia acreditado ser uma mulher precisando de ajuda. Olhou para a estrada e viu o Santana esperando por ele para fugir dali, mas, dessa vez, Eduardo não arredou o pé de onde estava. Ao invés de fugir, ficou ali, parado, vendo o responsável por todo o sofrimento que ele passará sendo levado para as profundezas do lago. Jamais havia perdoado Daniel por haver parado o carro naquela fatídica noite de outubro e não escondeu sua satisfação ao assistir a morte daquele desgraçado. Não demorou muito e a sinistra mulher, vestida de branco, saiu novamente do lago e, numa velocidade sobrenatural, anulou a distância que havia entre ela e Eduardo que, em nenhum momento, pensou em escapar. A mulher de pele extremamente pálida e fria o agarrou e, sem encontrar resistência alguma, arrastou, para o fundo do lago, aquele homem que já estava farto de viver atormentado.

Pouco mais de uma hora depois, Pedro freou, bruscamente, em frente a casa onde crescera, saiu do carro e, por diversas vezes, tocou a campainha. Como seu pai não atendia, o rapaz, preocupado, arrombou a porta e, apressadamente, ingressou pela sala, que tinha uma mancha de uísque numa das paredes e estilhaços de vidro de uma garrafa quebrada pelo chão. Eduardo, inerte, jazia sobre o sofá e após não obter êxito em acordá-lo, Pedro pegou o telefone e discou 192. 

Uma ambulância já havia sido enviada ao local quando ele identificou um pequeno papel sobre o chão. Pedro o pegou e viu se tratar de uma manchete antiga sobre o caso de uma mulher que fora estuprada, assassinada e seu corpo jogado num lago. A matéria informava ainda que o assassino nunca fora pego e que o caso gerou uma lenda, no Maranhão, de uma assombração que vagava nas imediações do lago, onde o corpo da moça foi encontrado, matando indivíduos do sexo masculino. No título da manchete lia-se: A dama do lago.

Pedro Henrique terminou de ler aquele recorte, amarelado, quando viu o socorro chegar. O rapaz ainda tinha esperanças de seu pai estar com vida, no entanto, Eduardo já estava morto. O óbito foi declarado ali mesmo no local. O mais intrigante foi que nenhum legista conseguiu explicar ao certo porque o corpo que fora encontrado morto, na sala de casa, tinha os pulmões repletos d'água, dando indicio de morte por afogamento.


Leia Mais...

O poço


Por Thiago Tavares 

Tudo começou quando encontrei aquele livro, empoeirado, no sótão da casa da vovó. Era lá que as coisas do falecido Jorge ficavam. Sei que é estranho chamar meu próprio avô pelo nome – todo mundo diz isso – mas a mim não soa tão mal, afinal de contas, não cheguei a conhecê-lo. Tudo que sabia a seu respeito era oriundo das estórias que minha saudosa vó Amélia contava. Ah... como eu gostava daquela senhorinha! Que Deus a tenha! Faleceu aos 78 anos, no interior de Minas Gerais, local do qual nunca arredou o pé. Meus pais cansaram de chamá-la para morar conosco, no Rio de janeiro, mas ela se recusava a deixar o velho casebre onde vivera ao lado de Jorge. Acho que era o jeito dela manter, na memória, as lembranças que tinha do falecido marido.

O fato é que durante toda minha infância a casa da vovó sempre foi minha primeira opção para passar as férias. Eu adorava cavalgar, tomar banho de rio, correr pelas plantações de mandioca, roubar frutas do terreno dos vizinhos e realizar todas as outras coisas que um “apertamento” no Méier não me permitia fazer. Papai e mamãe, raramente, vinham comigo. Quando, por um milagre, isso acontecia não permaneciam mais que um fim de semana e já voltavam para “selva de pedra”. Na época eu não compreendia muito bem aquele corre-corre deles, mas hoje, aos 36 anos, divorciado e com filhos, entendo as dificuldades da vida adulta. É o aluguel, a mensalidade da escola das crianças, as prestações do carro, as pilhas imensas de relatório para entregar ao  mala do meu chefe e, como se já não bastasse, ainda tenho de aturar a vampira da minha ex-mulher que liga, todo mês, reclamando da pensão que ela vive dizendo não ser o suficiente para bancar os meninos! Mulher miserável! Suga meu dinheiro como se eu o achasse voando por aí! Eu deveria ter ouvido meu pai que sempre dizia (quando estávamos longe da mamãe, é claro) que a vida ficava ainda pior depois do casamento. Ele tinha razão! Contudo, tomo a liberdade de fazer um acréscimo as suas sábias palavras: Ela vira um verdadeiro inferno após o divorcio!

Em meio a todas essas agruras, é perfeitamente normal que não sobre tempo para desfrutar das belezas naturais que o mundo nos oferece. Já até tentei fugir de toda essa tormenta passando uns dias no interior de Minas, no casebre onde a vovó morava, mas acho que fiquei tão acostumado com a agitação do meu dia a dia que a serenidade do interior tornou-se algo extremamente tedioso.

Sem perceber fui transformando-me no reflexo exato da imagem que tinha dos meus pais.  Sou uma marionete controlada pelo capitalismo. Uma estúpida engrenagem já acostumada a sua rotina! Eu tinha acabado de arremessar o telefone contra a parede, após mais uma das inúmeras ligações da desgraçada mãe dos meus filhos, quando finalmente me dei conta disso. Havia jogado minha vida fora! Entrei em pânico e corri até o quarto, abaixei diante da cama e puxei, de lá de baixo, a maleta que vovó me incumbira de guardar, instantes antes de falecer. Com cuidado eu a coloquei sobre o colchão e, por um tempo que não sei quantificar ao certo, fiquei observando aquela velha maleta que, por diversas vezes, já havia tentado destruir. Vó Amélia me alertara que seria inútil tentar algo do tipo, mas, mesmo assim, tentei e tentei até, por fim, acabar desistindo da ideia. Ateei fogo, atirei pela janela, enterrei, lancei em alto mar... das  maneira mais simples às mais absurdas, procurei me livrar daquele objeto, mas nada surtia efeito! Inexplicavelmente a maleta sempre aparecia novamente em baixo da minha cama.

Já tinha perdido as contas de quantas vezes havia tentado destruí-la e de quantas vezes havia praguejado todos os nomes de santo quando a encontrava, intacta, debaixo da cama, como se nada tivesse acontecido. Mas, naquele instante, algo diferente crescia em meu íntimo. Estava feliz por não ter conseguido. Verdadeiramente feliz! Graças as minhas frustradas tentativas agora eu tinha um meio de dar fim àquela vida medíocre que eu levava.

O pensamento, fugaz, ainda estava fresco em minha mente quando apanhei a maleta, as chaves do carro e saí. Em poucos instantes estava na estrada em direção a Minas Gerais. Durante a viagem, algo em minha cabeça tentava relutar contra a decisão que eu havia acabado de tomar, uma ponta de racionalidade talvez, mas eu não dava atenção. Liguei o rádio e, aumentando o volume a uma altura daquelas que chegamos a duvidar que os tímpanos sejam capazes de suportar, segui em frente. Acho que beirei a surdez com tal atitude, mas qualquer coisa era válida para não ter mais de ouvir minha estúpida consciência tentando me fazer desistir. O carro continuava avançando e, pelo retrovisor, eu observava a maleta, rememorando as palavras da vovó naquele fatídico dia de sua morte:

– Bernardo, meu filho, venha até aqui! – pedia ela, despendendo grande esforço para proferir aquelas palavras.

– Estou tentando ligar para o papai, vó! Vou avisar a ele que você esta passando mal! – respondi discando o número pela terceira vez.  – Droga! Só dá fora de área.

– Esqueça! Não há mais nada o que fazer! – insistiu pigarreando.

– Não vovó! Eu não vou deixá-la assim! Vou até a casa da dona Madalena. Ela deve conhecer algum médico que more por perto!

– Não! – gritou em meio a tosse carregada. – Se for agora, talvez não dê tempo! Você precisa me ouvir primeiro!

– Ouvir o que, vovó?

– Venha até aqui! – pediu por mais uma vez.

Eu desejava encontrar alguém para acudi-la o quanto antes, mas seus olhos, opacos, pareciam revelar se tratar de algo importante e então, recordo-me que, mesmo a contragosto, obedeci. Ela falava com dificuldade. As mãos enrugadas contra o peito tentavam, inutilmente, conter a dor. Acho que era um princípio de infarto ou algo do tipo, mas não tinha certeza, afinal eu era só um moleque de doze para treze anos. O que poderia saber a respeito daquilo? Lembro, como se fosse ontem, o jeito como, subitamente, ela ignorou a dor e me agarrou pelo braço pedindo que eu fosse até o sótão e pegasse a maleta que agora repousa no banco de trás do meu carro.

Por um instante, titubeei. Ela nunca havia me permitido ir até lá. Vendo-me paralisado com o pedido, vó Amélia gritou, por mais uma vez, para que eu fosse logo e então eu disparei, pelos corredores da casa, chegando até a escada de acesso ao sótão. Na verdade eu já sabia o motivo pelo qual eu nunca pude ir até lá. Qualquer um sabe que criança adora fazer o que é proibido e comigo não era diferente. Por diversas vezes já tinha entrado lá, às escondidas, e conhecia bem a maleta que vovó descrevera com todo cuidado para que eu não me enganasse. Esse era o real medo que fazia minhas pernas vacilarem, pois, embora ninguém, além de mim, soubesse, o livro diabólico que estava contido em seu interior era o responsável direto pela morte de, Juca, meu melhor amigo. O fato terrível havia ocorrido nas férias do ano anterior e, desde então, prometi a mim mesmo que nunca mais faria algo que alguém houvesse me proibido de fazer e nunca mais subi até o sótão. Bom... pelo menos até aquele dia.

Quando retornei, vovó já estava novamente deitada sobre o sofá. Parecia ainda mais pálida que antes e foi logo se apressando em falar. Alertou-me dos perigos que estavam contidos naquela maleta que pertencera a Jorge e que, dali em diante, ela estava passando para mim a tarefa de, mantê-la longe do alcance de qualquer pessoa, inclusive de mim mesmo. Informou ainda ser impossível destruí-la e que o melhor a fazer seria guardá-la em algum canto escuro e ignorá-la. Eu estava cumprindo bem minha função... até hoje!

Algo, no bolso da calça, iniciou a vibrar, interrompendo meus pensamentos. Só então me dei conta de que havia trazido meu celular. Eu o retirei do bolso já imaginando quem poderia ser e quando bati os olhos no visor constatei que estava certo.

– Maldita sanguessuga! De agora em diante estou tomando as rédeas da minha vida! – gritei lançando, pela janela do carro, o aparelho, recém-comprado.  
   
Primeiro o telefone fixo, agora o celular... essa mulher não para de me dar prejuízo! – pensei comigo. Ao menos agora ela não pode mais me importunar com suas queixas descabidas. Estou livre. Sim! Estou livre daquela voz irritante. Sorri aliviado. Logo não seria Renata o único problema a desaparecer da minha vida. Dentro de poucas horas eu ficaria livre de todos. Meus desejos seriam realizados e para mim, isso era tudo que importava naquele momento. 

Quando finalmente cheguei, estacionei em frente ao casebre da vovó sentindo o cansaço da viagem. O que não era pra menos, afinal, minha ansiedade havia me impedido de realizar qualquer parada durante todo o percurso. Meneei a cabeça, expulsando o sono, estiquei o braço para apanhar a maleta e em seguida deixei o carro.   Já eram altas horas da madrugada, estava muito frio e até onde meus olhos podiam alcançar, não existia mais uma vivalma além de mim. Caminhei, lentamente, até os fundos da casa, observando o local onde vivenciei tantas alegrias. “Ao menos minha infância foi feliz!” concluía, em meio a um suspiro profundo, quando, subitamente, meus olhos identificaram uma criança ao lado do antigo poço, mas não era qualquer criança que estava lá, parada, a me olhar. Era Juca!

– Na-não é po-possível! – gaguejei com os olhos arregalados diante daquela visão.

Tentei correr de volta para o carro, mas um medo tão violento havia se apossado de mim que minhas pernas estavam travadas. Era como se pesassem toneladas. Pensei em gritar, mas quem me ouviria? Estava tudo deserto e a casa da dona Madalena, que era a mais próxima, ficava a uma distância considerável. Tremendo, mais que vara verde, eu assisti aquele que fora meu amigo de infância se aproximar até ficar bem perto de mim. Sua pele estava incrivelmente pálida e olheiras profundas, como nunca vi igual, estavam alojadas logo abaixo dos tristonhos olhos que pareciam revelar um sofrimento indescritível.

– O que... o que você quer? – perguntei numa altura quase inaudível. A voz saiu tão baixa que cheguei a pensar que não havia perguntado nada, mas uma resposta, quase que imediata, fez-me crer no contrário.

– Não faça isso Bernardo!

Sem dúvida alguma era a voz de Juca, mas os lábios arroxeados daquela criança permaneciam cerrados.

– Não faça isso Bernardo! – ouvi por mais uma vez e dali em diante não parou mais. Levei as mãos contra os ouvidos a fim de protegê-los, mas não adiantou. A voz estava dentro da minha cabeça se repetindo e se repetindo, em uma velocidade frenética, enquanto aquele macabro fantasma, ou sei lá o quê, me observava com seus olhos tristes. De repente, minhas pernas voltaram a obedecer e tudo que consegui fazer foi ajoelhar e fechar os olhos pedindo para que aquilo parasse.
Não sei por quantas vezes escutei aquela frase ou por quantas vezes implorei para não mais escutá-la até que, de uma hora para outra, sem mais nem menos, tudo serenou. Novamente abri os olhos e percebi que estava no mesmo lugar, a alguns metros do poço, mas não mais ajoelhado. Estava estirado sobre o chão lamacento que tempos atrás fora um gramado bonito. Tentei me levantar e escorreguei novamente sujando-me ainda mais com aquele barro. Logo conclui que estava tão distraído com minhas lembranças da infância que não percebi o perigo que o chão me oferecia. Certamente eu havia caído e ficado desacordado, por algum tempo, envolvido naquele louco pesadelo.

– Isso! Só pode ser isso! – exclamei tentando me convencer de minha teoria enquanto apanhava a maleta caída ao meu lado.

Imaginando quanto tempo havia permanecido desacordado caminhei até a beira do poço e retirei as tábuas que encobriam sua abertura. Olhando ao redor me certifiquei por mais uma vez que estava sozinho e, retirando o excesso de lama das mãos, abri a mala, no exato instante, que uma mão surgida, do nada, me agarrou pelo braço. 

– Pare! Não cometa esse erro! – disse o velho, de fisionomia extremamente familiar, me segurando.

Por uma fração de segundos a figura surgiu proferindo aquelas palavras para então desaparecer na mesma velocidade. Foi muito rápido, no entanto, pude observar bem aquelas feições e tive a impressão de que era o mesmo homem que via nas fotos que vó Amélia me mostrava. “Sim, era ele!” pensei comigo. “Era o Jorge!”

– Diabo! – Nunca mais viajo tanto tempo sem realizar paradas. Estou começando a ver coisas! – resmunguei, tentando fazer o coração descompassado se acalmar novamente. Queria acreditar nisso, mas, no fundo, eu sabia o que estava acontecendo. Os espíritos estavam tentando me impedir.

Lembrei de Juca e da forte amizade que possuíamos. Era horrível ter de reconhecer, mas talvez, se nunca tivéssemos nos conhecido, ele poderia ainda estar vivo. Eu tinha sido o responsável direto por sua morte. Eu e esse livro que jamais deveria ter sido tirado do sótão sem permissão. Mas eu era um bisbilhoteiro enxerido e não conseguia controlar o ímpeto de experimentar o proibido.

– Droga! Não era para ter sido assim! Perdoe-me Juca! – disse com os olhos marejados.

– Não foi sua culpa, Bernardo! Você era só uma criança e, assim como eu, ignorava a gravidade do que estávamos realizando.

Virei para trás, ao ouvir aquilo, e deparei-me com a mesma criança, de olheiras profundas, que eu acreditava ter visto em pesadelo.

– Juca!

– Sim! Eu sou o espírito de Juca e estou preso ao poço assim como também está seu avô! Esse é o destino de todos que se rendem a sedução de Abdel! – Descobri, da pior maneira, que não compensa ter nossos desejos realizados por esta entidade, pois em troca, ela nos toma o que temos de mais valioso: Nossa alma!

– Não! Eu o libertei!  Li as palavras que realizavam a quebra da magia, exatamente como estava no livro!

– Já era tarde, meu amigo! Minha alma já estava corrompida! Sua avó também achou que havia feito o mesmo pelo marido... ela morreu acreditando nisso, no entanto, nem  eu e tampouco ele, poderemos um dia descansar no reino dos céus. Somos escravos de Abdel, assim como muitos outros.
Confuso, apanhei o livro e comecei a folheá-lo procurando pela página certa. Uma estanha sensação de estar ouvindo risadas e murmurinhos, após a abertura do livro, causava-me calafrios, contudo, não interrompi minha busca.

– Sei o que veio fazer aqui Bernardo! Mas eu lhe garanto que essa não é a melhor solução!

– Achei! – gritei, sem dar muita atenção às palavras do fantasma de Juca, quando finalmente encontrei a página.

Passei os olhos, rapidamente, naquelas escrituras, e, como da ultima vez, não encontrei nada sobre se tornar um escravo ou algo parecido, contudo, havia um parágrafo, em latim, próximo ao rodapé da página que, na época, eu havia julgado não ser importante. Certamente era ali que estava contida tal informação.

– O que diz aqui nesse parágrafo?! – O que diz?! – indaguei sentindo minha cabeça ficar cada vez mais confusa. Era bem capaz de eu já estar beirando a loucura ou, quem sabe, eu já não estivesse louco, afinal, estava conversando com um fantasma.

Juca estava prestes a me responder quando gargalhadas bizarras ecoaram de dento do poço.

– Depressa, Bernardo! Vá embora! Eles estão vindo!

– Quem está vindo? – perguntei com as pernas tremulas. O desejo de dar continuidade a tudo aquilo que eu planejara havia desaparecido.

– As entidades da escuridão que servem a Abdel! Você precisa sair daqui!

Tentei correr, mas não houve tempo. Uma quantidade absurda de vultos surgiu, fazendo um cerco a minha volta. Olhei para o lado e o fantasma de Juca havia desaparecido. Uma força estranha se apoderou de mim e comecei a realizar movimentos contra minha própria vontade. Meu corpo já não estava mais sob meu controle! Sem poder fazer nada, senti meus joelhos se flexionarem e, em seguida, vi meus braços irem em direção ao chão para apanhar o livro que deixei cair durante a tentativa de fuga. Ainda estava na mesma página que eu havia aberto instantes atrás.

Os vultos pareciam murmurar algo uníssono em minha cabeça, algo que eu proferia a contragosto. Logo percebi que era o encantamento que faria a evocação do demônio. O mesmo que Juca havia feito anos atrás. O vento que até então estava calmo, soprou mais forte e cheguei a pensar que as árvores, à volta, seriam arrancadas pela raiz. Eu já não era mais uma marionete do capitalismo, agora eu era uma marionete de entidades malignas. “Sem dúvidas teria sido melhor ficar com a primeira opção.” pensei enquanto lágrimas de arrependimento corriam pelo meu rosto, mas já era tarde demais para isso.
Uma força ainda mais poderosa que o vento que fazia as árvores balançarem, como gravetos, lançou-me em direção ao poço. Tentei evitar a queda, mas meu corpo permanecia inerte aos meus esforços de movimentá-lo. Colidindo contra as paredes estreitas, caí, pesadamente, contra a lama fedorenta já contida, por anos, no fundo daquele poço desativado. Com feridas abertas e sentindo que diversas partes de meu corpo estavam quebradas, olhei para o alto concluindo que seria impossível sair dali sem ajuda. Ainda não tinha me dado conta de que aquele seria meu túmulo.

Desesperado, gritei por socorro, mas eu sabia que ninguém iria me ouvir. Acho que gritava para tentar espantar o medo da escuridão súbita que se fizera a minha volta. As paredes que, até então, me deixavam em uma posição desconfortável tinham desaparecido. Era como se eu estivesse numa outra dimensão, mas, embora eu tentasse, não conseguia ver a um palmo de distância e não fazia diferença alguma entre ficar de olhos abertos ou fechados, todavia, eu os mantive bem abertos. Estava apavorado e quase desmaiei quando vi as duas esferas avermelhadas surgirem em meio ao negrume. Eram olhos, inconfundíveis, que inflamavam o fogo do inferno. Abdel vinha em minha direção.

– Olá Bernardo! – saudou-me a voz gutural. – Estive esperando, ansiosamente, por este reencontro!

Após três dias, sem que Bernardo desse as caras, Renata foi até a delegacia notificar seu desaparecimento e, dois meses depois, o automóvel de seu ex-marido foi encontrado, em Minas Gerais, mas não havia nenhum sinal de Bernardo. Nem sequer uma pista. Tudo o que os policiais encontraram foi uma maleta com um livro de capa preta no banco traseiro do carro.  


Leia Mais...

O Ilustre Convidado

Ele recebeu o convite há mais de três meses e de início recusou. Conduzir Rose ao altar? Será? Pensou em arrumar uma desculpa qualquer. Achou que iria se expor demais. Após pensar e repensar decidiu aceitar o convite para aquela cerimônia. Já conhecia este tipo de celebração a mais de dois séculos. A filha única de sua vizinha iria casar. Órfã de pai, precisava de um acompanhante para conduzi-la ao altar. Melancólico, lembrou-se dos festejos da irmã, ainda no tempo em que os carros eram puxados por cavalos. Há tempos não saía de casa, a não ser de vez em quando, à noite para caçar. A festa era tarde então achou por bem cumprir as formalidades na igreja e retornar a segurança de seus aposentos.
Na data marcada adentrou de braço dado com Rose à nave central do templo numa elegância ímpar, atraindo a atenção dos presentes. Logo após entregar a nubente ao seu ansioso par começou a passar mal pela proximidade do altar e do enorme crucifixo acima de sua cabeça. Retirou-se cambaleante de imediato e, chegando à saída, a mãe da noiva veio em seu encalço demonstrando total preocupação. Inventou uma desculpa qualquer e ouviu a súplica desta implorando por sua presença, pelo menos na festa em local próximo dali. Andou a esmo por vários quarteirões e próximo da meia-noite decidiu-se por fim atender ao pedido de sua vizinha.
Penetrou ao espaço dirigindo-se à mesa indicada com seu nome, sentou-se e observou todas aquelas criaturas inferiores alegres e cheias de vida. Experimentou a inveja e por um segundo sentiu remorso, sendo responsável por um número interminável de mortes em sua longa existência. Prometeu a si mesmo que iria se comportar da maneira mais digna possível.
Começa a valsa dos noivos e então se ouve uma grande explosão. A energia cai e sobrevém a escuridão. O velho gerador do clube não suportou o moderno equipamento de luz e som instalado às pressas para a ocasião. Faz-se o caos. Em seguida um garçom cego tropeça com sua bandeja apinhada de garrafas e copos. Dezenas de convidados buscam a saída. Muitos caem e se machucam nos cacos lançados ao chão. Ele observa tudo com sua visão acentuada. O ar fica impregnado com o doce aroma de sangue fresco. Seu olfato aguçado faz seu corpo enlouquecer e ele já sente seus caninos rasgarem as gengivas. Logo cai em tentação aproveitando as trevas e a grande fartura disponível de alimento da melhor qualidade.
Leia Mais...

As meninas de Boca de Ouro...





As meninas de Boca de Ouro...



A menina de saia curta, subia a ladeira de degraus curtos, levava nos braços um enrolado de panos, passava pelos homens sentados na sua empreita de nada fazer, enrolando seus baseados baseados em sua conduta de ociosidade naquela parte do morro, ela ia naquele sorriso cativante que deitava a seus pés todos que a desejavam, ela sabia disso, seguia como regra absoluta de que um dia colocaria todos a seus pés, seria a dona daquele lugar, iriam respeitá-la nem que fosse à força...

Os olhos de alguns se abaixavam para olhar sob sua saia, branca de pregas, ouviu comentários sobre a cor de sua calcinha que aparecia em seu rosa de quase criança ainda, mal havia completado seus catorze anos, adorava um pancadão, e descer até o chão fazendo todos fotografarem sua vulva a querer saltar das beiradas da calcinha que entrava entre os lábios provocando tesão e até orgasmo na sua virgindade de menina.

Parecia ontem que estava sentada no balanço de barquinho que viu ele parar na tela do parquinho onde estava com os menores de casa, ele sorriu e lhe fez um gesto com a mão chamando-a e ela se dirigiu a ele, mesmo o irmão pequeno a agarrando, ela desvencilhando-se seguiu olhando naqueles olhos negros que lhe sorria com aqueles dentes enormes e amarelados, seu sorriso tímido e metalizado era um esboço ainda de futuro.

Fez gesto que se aproximasse do alambrado, abaixou-se para lhe falar ao ouvido e ela se arrumou para ouvir, quando sentiu seus dedos avançarem pelo meio de suas pernas, roçarem seu segredo que umedeceu rapidamente para aqueles dois dedos que esfregaram-na e ao ouvir sua voz sentiu o chão sumir, teve espasmos naqueles dedos, naquela voz e naquele hálito de tabaco e ela de face ruborizada na pele branca...

Ele quando tirou sua mão de sob a saia dela, levou os dedos ao nariz e cheirou, beijou e levou os dedos à boca da jovem que depois de suave beijo abocanhou e sugou-os com vontade, tirando gemido do homem de barba mal feita, cabelos desgrenhados, olhos verdes e pistola na cintura.

Coçou o saco na tentativa de ajeitar suas partes e sorriu para ela.

__Não se esqueça!

A partir daquele dia, ela tinha gozos estonteantes apenas lembrando-se dele, do que sussurrara em seu ouvido...

Agora lá estava ela, saíra de casa, deixara os pequenos sozinhos, os pais que se ferrassem, queria a sua vida, e sua vida seria de poder, teria agora o chefe da milícia como protetor, até seu pai, auxiliar direto do delegado da 43ª, tinha medo do terrível Boca de Ouro.



Subia os degraus do acesso à melhor casa do Morro da Fumaça, olhava os homens que estavam sentados em pontos estratégicos, uns vendiam drogas para controlar os viciados do lugar; outros eram encarregados da distribuição de gás; outros da gatonet; outros do transporte clandestino; o esquema era todo comercial como o seguro obrigatório que todo morador tinha de pagar, caso contrário não teria a proteção dos ataques que a comunidade sofreria, não por traficantes querendo retomar a posse e sim da polícia normal que vez ou outra precisava mostrar serviço e por que não ajudar a milícia acabar com os concorrentes e ganhar uns por fora, uma boa molhada de mão.

Sua esperança quase infantil era poder, ter e possuir. A cada dia em que se olhava via seus dias perdidos, os pais trabalhando para nem mesmo poderem lhe comprar um ipod, nem trocar o PC que já estava defasado, de velha geração.

Olhou a base do morro de onde estava, que linda era a visão, na sua cabecinha era como estar em um castelo olhando a plebe rastejando lá embaixo, ali o vento amenizava o calor, as poucas árvores produziam vida em seus movimentos delineares e as folhas sobre o chão como um cobertor naquele chão, chão de gente trabalhadora, mas domesticada pelo medo e pela miséria, chão regado a sangue de quem ousou enfrentar a vida causando danos a si mesmo através das drogas, da arma de fogo, da tocaia, do sangue frio ao puxar o gatilho na cabeça do indivíduo tratado como cão...

Na frente do grande barraco que parecia uma fortaleza viu a segurança, pelo menos uma dúzia de homens armados com fuzis estavam situados, ela nem pediu para ser anunciada, foi entrando e eles abrindo caminho, a porta se abriu...

__Sou assim, você pode me chamar do que quiser. Não sei como me descrever, você me quer?

__Vem! Dá um tapa aqui... Ele esticou o braço a ela com um baseado aceso, ela aspirou a fumaça dos dedos dele, e ele para forçar ela a segurar o poder da canabis batizada de pasta pura que só ele usava, descerrou um beijo forte, ela quase sufocada agüentou firme e em pouco estava num mundo viciado e prostituído.

Foi levada pela mão até o quarto, um puxadinho separado da casa, ali outras meninas se amontoavam sobre colchões, e bastou um sinal para que o ambiente ficasse vazio, ele arrancou suas roupas e não tirou as suas e a penetrou com aquela coisa imensa com a calça aberta no cinto, no zíper e no botão, ela gemeu, grunhiu mordendo o próprio lábio, ele foi forte e ela nem mesmo gozou como sonhara, nem mesmo experimentou prazer, só dor e o calor quente do sangue escorrendo entre sua virilha sobre a cama, ele ejaculou sobre ela, passou a calcinha branca que ela ganhara no último natal e fez com que ela sugasse as últimas gotas de esperma que restavam em seu pinto de homem.



Seus sonhos de carinho ao perder a virgindade como Eva havia perdido com Jorginho da turma E-4 do colégio e lhe contara, e o que dizer do poder de ser a mulher do chefão ficaram perdidos nas lágrimas que com ela amanheceram, sozinha, nua, numa poça de sangue, naquele quartinho frio.

Sabia agora que tudo não passou de um impulso, de falta de reflexão, de uma ação impensada, e tinha consciência que foi um erro, e como consertar este erro? Sem virgindade, sem casa, sem pátria.

O pouco que dormiu... Abriu os olhos e as meninas expulsas estavam todas ali, à sua volta, a mais velha lhe jogou uma toalha velha e apontou o banheiro, disse de suas tarefas quando saísse do chuveiro que segundo ela era uma regalia, disponível só quando Boca de Ouro queria ou quando ia ter festinha especial; suas roupas que trouxera estavam espalhadas, haviam sido divididas entre elas.

Teve que lavar o lençol sob a ducha, ao ensaboar-se chorou mais uma vez, a responsável lhe avisou para parar de chorar senão seria pior, afinal o que era um cabaço a mais ou um a menos. Os colchões ao irem acordando eram levantados na parede, para sobrar espaço, não demorou muito e houve batidas na porta, um jovem armado entrou ficando em prontidão de fuzil cruzado no peito e outro entrou trazendo um saco de pão com mortadela e duas garrafas térmicas onde se lia sobre a fita crepe café e leite.

Montaram rapidamente uma mesa colocando tábuas sobre dois cavaletes, e enquanto comiam conversavam, estavam ansiosas para saber quais as palavras ele usara para lhe trazer ali...

__Que ele te disse? Fala, sabemos que ele diz...

__Ele... Disse que quando fizéssemos direito ia ser devagar e maravilhoso...

Todas, menos outras duas, riram... Era a artimanha que usava, durante o assédio era o rei dos carinhos, mas depois mostrava a que veio, queria era ser o primeiro e assim recrutar as cadelas para seu proveito...

A menina estava assustada, as horas passavam e mais consciência sobre seus atos caíam, eram como marteladas, e suas lágrimas vinham involuntárias. Até na hora da faxina, com o pancadão rolando solto, e nem era anoitecido ainda quando o mesmo jovem da manhã lhes trouxe um presente, raspas de cocaína que calmamente fez fileiras uma ao lado da outra sobre a bandeja suja e engordurada enrolando uma nota de dez reais deu a servirem-se, e alguns tequinhos de maconha que ele também serviu-se, fumando sentado no canto com a mão descansando sobre o fuzil postado ao lado...

__Um presente merece outro, né não?

__De quem é a vez?- sugeriu a ruiva. - Lembrei é você Maria de novo, esse seu primo é tarado por ti.

__É tara não... É que quando ela era livre, no mundo dela não me dava bola... E aqui só come se eu trouxer, não é mesmo vadia?- dizia ele, vendo a menina desabotoar-lhe a calça e tomar para si, fazendo sumir na boca o membro ereto dele, que como sempre não demorou na sua precocidade.- Se preparem que hoje tem osso queimado na laje de cima, e tem microondas também pelo que parece.

Leia Mais...

Seguidores: