Psicografia



Por Danilo Pelloso

Era para ser mais um registro no meu diário, um desabafo em tons de saudade a minha querida irmã.
Eram rabiscos sem sentido, no tropeçar das palavras.
As cortinas alvoroçavam. Sentia passos caminhando pelo corredor. Sussurros, com gargalhadas. Uma mulher, com seu longo vestido preto a cobrir o corpo, com os pés a não tocar o chão.
Seu olhar? Aterrador.
Estava ao meu lado. Eu? Cedia a minha mão para que ela pudesse escrever a mensagem. O que queria? Não saberia dizer.
Eu? Entristecida, com nauseante sentimento. Aquele sombrio olhar deixava-me a viajar em pensamentos.
Naquela tarde ensolarada de domingo, as nuvens cobriam o azul do céu. Minhas atitudes escureciam a minha existência.
Um empurrão no nevoeiro das águas cristalinas. Poderia ser ciúmes do comportamento amoroso de mamãe, para com minha irmã.
Ela sempre roubava a cena com carinho e atenção. Inexistia tempo para mamãe externar o quanto me amava.
Na mensagem psicografada estava escrito assim.
- Querida mamãe. A saudade de Kate, não me concedeu opção. Desculpe. Estarei sempre ao seu lado. Assinado Carol.
Assim Kate, com minhas próprias mãos, apertou meu pescoço, num sufocar repentino. Estrangulada.
Senti minha essência partindo do meu ser. Num suspiro de arrependimento, abandonei minha vida.
Minha irmã? Vestida de preto, com mãos a caminhar comigo, no deslizar do não tocar os chão.
Mamãe? Continua em prantos e lamentos. O porquê dos acontecimentos? Ela não iria entender.

(Crônica a ser publicada na Antologia Galeria Literária, pela Editora Celeiro de Escritores, 2012).
Leia Mais...

Confissão



Por Danilo Pelloso

– O que lhe aborrece, jovem? Como poderia eu ajudar? – Essas eram as palavras do velho senhor, de mãos trêmulas, encarcerado no confessionário.
Eu? Em prantos.
Meus olhos, num lacrimejar lamurioso, rosto circundado por gérberas, e jasmim. Corpo inconstante, no trepidar repentino. Mãos entre pernas, no íntimo gesto, do ocultar a verdade.
– Liberte seus pensamentos, jovem. – Convida o padre, a viagem psíquica, em passados e lembranças.
Tropeçando nas palavras, concedi o começar da estória.
Outono, ensolarada tarde. O prazer contido no silêncio. Lembro-me de pensar na separação dos meus pais, até a chegada daquele homem. Agradáveis palavras no oculto preto vestir.
Eu? Deprimida. Não entendia o porquê da separação. Diziam amar um ao outro, mas se realmente amavam, o porquê?
Com o distanciamento dos meus pais, apoderou-se de mim a depressão. Suicídio? Libertaria minha alma, daquele turbulento nauseante corpo.
Bosque verdejante, em flores, com árvores a sorrir. Aquele homem continuava ao meu lado.
Seus dourados fios lembravam-me querubins.
O tempo partiu sem se despedir. Mãos juntas, apreciando o belo. Devaneio olhar, em repetidas palavras de saudação.
Com suas mãos, no calor das minhas pernas entre abertas, acariciou-me no flamejante tocar. Seu olhar? A oculta maldade, em carinhosos gestos.
Sua mão descia na lisa onda passarela, tocando em gracejos a minha intimidade. Um despautério.
Naquele homem, a face angelical da ilusão, suas mãos continuavam.
Soltando gemidos, acompanhados do beijar de lábios e seios, me desfiz na presença do desconhecido.
Antipatia? Não a tinha. Apenas um desconhecido que confiei meu desnudo corpo fragilizado.
Assim no persistente penetrar, o sol se pôs, assim como a minha vontade de viver. O homem? Partiu.
– Continue jovem. Continue. – Dizia atônito, o curioso padre, empolgado no desfecho do romance.
Assim continuei.
Caminhei no solitário conversar, com folhas a abandonar seus lares, vivendo na peripécia sem sentido, do pensar que não sabia.
As pétalas alegravam meu olhar. Pensava em fugir da própria existência, mas o bosque me apresentou o lado belo da vida.
Maldita e bendita tarde de outono. Meu sangue em vermelho apático.
Continuei caminhando entre flores e pássaros, numa suave sintonia no incontido choro, da emoção em caminhar, de um lado ao outro da existência. O sentimento de partir me abandonava. Sentia a vida, e assim queria estar, mas aquele homem, aquele execrado terno preto...
Aquela casa. Lá não poderia voltar. Inóspita. Estava viva. Não gostava de mim. Suas paredes, com odor fétido de lodo, escura, no sombrio sussurrar. Após a separação, os vultos jamais me abandonaram. Nos corredores, as vozes ecoavam murmúrios, no bucólico sangue da bela pureza. Seres entravam e saíam das paredes. No teto, mãos tenebrosas querendo pegar-me. Espelhos com imagens da morte. Face em branco pavor. Tudo se fez ver de repente.
Sentia-me só, mas acompanhada.
O medo permanecia em meu ser. Aquela residência. Assim andava entre as árvores do bosque. Não queria para casa voltar.
Naquele dia, com belas palavras, abandonei a pureza do meu corpo, nas mãos daquele intrépido homem grotesco.
O bosque, antes amável, agora lembrado tristemente, pelos lamentos do pairar das flores, no pensar deixar a vida.
Meu ventre? Continuava a crescer.
Abandonada pelos pais, mas não pelo pequenino, que se fez presente, na imagem daquele intrépido homem desconhecido, que agora era pai.
Não conseguia assim estar.
No abrupto puxar do ventre, o fiz nascer prontamente. Não chorou. Era apenas um pedaço de carne.
O silêncio.
Estava atormentada com meus pensamentos. Aquele vulto infantil, ao meu lado, fazia-me sentir que não estava sozinha.
Vejo sempre um pequeno menino, com olhos negros, a soltar o tenebroso sorriso, olhando para mim, no aproximar das imprudentes lâminas pontiagudas, convidando-me a brincar.
Seria peripécia da minha mente atormentada?
Cinzas no santuário. Os anjos continuavam com densos olhares, a externar o pranto, em escuro sangue.
Estava amedrontada. Assim escuto o sussurrar.
– Jovem, vá e não peques mais. – Disse o padre, iluminando minha face no leve sinal da cruz.
Continuei a olhar aquele homem de batina. Possuía os mesmos fios dourados, agora encaracolados. Um querubim, vestido de preto ilusão.
Outono no bosque. Lembranças da fatídica tarde de domingo. Senti que se apoderou de mim, pela fragilidade do meu ser. Inexistiam dúvidas. Era ele. Assim, aquele homem, continuava caminhando. Nas verdades da confissão, nos lentos passos a distanciar de mim, preferiria aparentar não conhecer. Mas eu sabia do seu lado obscuro, das suas peripécias no bosque.
Necessidade.
Caminhei para perto. Pedi atenção, com pequeninas mãos a tocar seu corpo. Ele virou. Olhar sereno, mas sua alma continuaria enegrecida na sombria existência.
Com o crucifico a chacoalhar no pescoço, retirei daquele intrépido homem, e num movimento, cravei em seus olhos.
Gritos, no silêncio escorrer sangue fresco. Aquele homem ruiu no altar, com anjos e demônios. Não queria ver seus olhos repreensivos sobre mim. Não seria a única culpada dos acontecimentos.
O partir da alma, em inanimado corpo.
Viajou como o meu menino.
Orações? Não faria.
Com suas gélidas mãos, acariciei minha intimidade. Revivendo o passado de erros cometidos.
Pequeninas pálidas mãos, convidando-o para o passeio. Estava lá. O meu filho junto ao pai, partindo para o mundo desconhecido, onde não é permitido falar.
Aquela alma de olhos negros, com pés a não tocar o chão, virou para mim, com aterrador sorriso.
– Mamãe, agora brincarei com papai. Era ele que eu queria. – Dizia o aquele ser grotesco, levando o homem, para labaredas e sangue.
Assim ele não terá mais tempo para me tocar. Suas mãos ficarão juntas, eternamente em oração.
Balançando os braços, saúdo no partir do adeus aos conflitos.

(Conto publicado na Antologia Contos de Outono - Edição 2012, Câmara Brasileira de Jovens Escritores).
Leia Mais...

A misteriosa máquina de escrever



Por Danilo Pelloso

Sangue respingado, no metal desgastado em ferrugem degradante, no velho cadilac branco.
- Mami, mami. Murmúrios entoados.
O céu ecoa a tormenta sentida por mamãe, que chora um pranto entristecido pela perda do meu irmão, seu filho, o Tom.
Um acidente, mais precisamente um atropelamento, sem aparente sentido.
Comigo nenhum arranhão. Mamãe continua desolada. Seu filho, em partes descompassadas, assim como seu coração em retalhos da dolorosa separação.
Naquele chão imundo estava o pequenino, que mamãe sempre amou.
- Mami, mami. Essas eram as últimas palavras recordadas do meu irmão.
No cadilac, um senhor apavorado, com visão embaraçada, apresentando desconhecer o triste fato.
Palavras alternadas num desculpar do choro incontido. Aflito. Sentimento de culpa misturado na angústia em não ter visto o pequenino.
Fatalidade.
Meu irmãozinho, cabelos enrolados, olhos num celeste azulado, pele pálida, não por estar sem vida, mas pelo esbranquiçado da inocência infantil.
Os olhos de Tom não brilhavam mais, nem os de mamãe, exausta em pensamentos tortuosos.
Na volta para a casa, ela relembra do seu Tom. Moleque arteiro, a aprontar peripécias com a roupa suja de terra, ganhando uns puxões de orelha de papai
Retorna a tristeza.
Naquela noite, mamãe dormiu com a lembrança de Tom em sua mente como se ele estivesse em seus braços, apertando-o num longo abraço.
Noites e noites se passaram. No escurecer de um céu cinzento entristecido, escutam-se na residência vozes do desconhecido.
As cortinas alvoroçavam em movimentos estranhos, coisas saiam de lugar, assim como as portas abriam e fechavam.
Ambiente gélido.
Alguns livros infantis espalhados, os preferidos pelo meu irmãozinho, que não voltará para mamãe fazê-lo dormir com as estórias.
Todas as noites coisas estranhas aconteciam.
Andando pelo corredor, mamãe deparou com o movimento de um vulto enegrecido, num gargalhar sinistro, de tom ameaçador.
Assustada, naquela noite continuou acordada. Não conseguia dormir.
Mamãe odiava aquela residência. Arquitetura antiga, de aspecto sombrio. Nas paredes, o verde lodo imundo, no contornar de estátuas de anjos. Residência em contraste.
Batidas secas escutadas.
Não era somente a tormenta da perda repentina de Tom. Naquela casa estavam presentes forças ocultas, num revelar de murmúrios.
Vozes em desatino, no corredor, assim como lamentos na sala, e gargalhadas nos quartos.
Manifestações do obscuro mundo oculto.
Na casa há outros hospedes além de mamãe, papai e eu. Pessoas que só aparecem à noite em forma de vultos para nos fazer mal.
Mamãe sonolenta, caminha lentamente seguindo uma voz que ecoa. Eram sons chegando e partindo, doces e malignos.
No banheiro.
O som desapareceu assim como meu irmão, naquela fatídica tarde de domingo.
Mamãe olhando no espelho, com aparência cansada, num balançar de cabeça repetida, observa um vulto, uma pequenina criança encarando-a.
Ela passava a mão nos olhos, mas a imagem continuava lá, olhando e sorrindo, num gargalhar assustador.
Não era reflexo. A criança estava dentro do espelho.
Em gritos, mamãe pulou para trás, num desmaiar repentino.
Desesperado, papai vem ao encontro. Mamãe é colocada na cama, continuando a falar sobre Tom.
Noites se passavam. Encontrava-me atormentado. Sentia náuseas no próprio quarto.
Com o dedo apontando o canto da parede, onde vi um menininho, todo desfigurado, com a mão estendida, convidando-me a seguir um caminho desconhecido. Não queria ir com ele.
Mamãe consolando, abraçou-me.
Vultos, vozes, aparições. Objetos movimentando. Luzes acendendo, janelas abrindo e fechando.
Todos sabiam disso, mas papai não admitia. Cabeça dura.
As noites os acontecimentos repetiam.
Mamãe e eu não saiamos mais do quarto.
Pavor.
Meu único amigo era o travesseiro, que apertava quando escutava o ranger da porta entreaberta e passos rápidos no corredor.
Várias noites acordado. O barulho era um irritar preciso sem sentido. Tec, tec, tec, acompanhado de um arrastar de poltrona.
Insônia.
Aquele som parecia martelar na minha cabeça.
O tec, tec, tec, incomodava mamãe, que deixou o quarto para descobrir de onde surgia.
Olhos na sala, nos quartos. Apenas uma coisa que pudesse explicar.
Estava lá. Parada numa escrivaninha de mogno, com uma poltrona estofada.
A misteriosa máquina de escrever.
Ninguém acreditou no que seus olhos revelavam. A máquina estava escrevendo sozinha. Não havia ninguém sentado naquela cadeira.
Mamãe transtornada girava num circundar, margeando a mesa.
A máquina, todas as noites, solitária, escrevia a carta sombria, assinada, no rabisco amador da tinta, que movimentava por mãos não vistas.
De repente o barulho cessou. Todos parados, atônitos.
A carta, pairando sobre a escura sala, repousa nos pés de mamãe, que a guardou.
Pela manhã, aflita, juntamente comigo, no mesmo local em que meu irmão abandonou a vida, mamãe aventurasse na leitura da carta, que dizia:
- Mami, todas essas noites tentei dizer o que ocorreu naquele dia em que deixei de viver, mas ninguém me escutou. Não foi um acidente. Alguém estava atrás de mim, quando senti o empurrar do meu corpo, por pequenas mãos, em direção ao veículo. Mãos de.... O motivo acredito ser... Assinado Tom.
Era ele. Sabia disso.
De repente, no continuar da leitura, mamãe sente as pequeninas mãos em sua cintura, e com um empurrão a ser jogada no chão, deitada na rua.
Encenada tragédia. Fiquei a observar.
Mamãe, antes de ser atropelada, olha nos meus olhos, concedendo um adeus. Desconhecia apenas o intuito.
Foi minhas próprias mãos. Motivos? Ciúmes de ter minha mamãe dividida com Tom. A morte de mamãe atribuo ao meu irmão, por revelar nosso segredinho.
Hoje mamãe continua ausente. Acredito ser melhor assim.
Tom não mais me incomoda. Não há barulho, nem vultos, nem o tec, tec, tec, da máquina de escrever.
Nunca mais o vi. Agora solitário pela distância, não como antes, que mesmo pertinho de mamãe e Tom, sempre sozinho estava, pela ausência de atenção.

(Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Edição 2012, Câmara Brasileira de Jovens Escritores).
Leia Mais...

O demônio exorcista


Por Danilo Pelloso

Era para ser uma tarde qualquer. Aquela, com nuvens e pássaros. Em minha mente, um assustador pressentimento. Algo estava errado.
Eles estavam lá. A porta se fecha, num bater repentino. Um odor fétido, de carne fresca, com lodo e sangue.
Naquele quarto sombrio, um ser aterrorizante, com semblante grotesco, negras asas no dorso, e uma túnica, a esconder a outra face.
Satã. Pensativo, andava de um lado ao outro, transtornado.
Na cadeira, com movimentos contidos em cordas de seda, o religioso. Espumava uma gosma branca, a sair da boca, proferindo blasfêmias ao divino.
Escutavam-se vozes do inaudível, num sussurrar de vultos, que flutuavam sobre o chão. Não tocavam o solo.
O religioso, com sinistras gargalhadas, alternadas com prantos, contorcendo toda a matéria animada, com o rosto a expressar o maligno, fazia o demônio desistir em aproximar-se.
Olhar fixo na besta.
– Não conseguirá subtrair minha alma, seu demônio imundo. Esse corpo a mim me pertence. – Dizia o religioso.
Satã, almejando auxiliar aquela alma que padece, trazendo a compreensão da dualidade da vida, do bem e do mal, apresentando a verdade aquele senhor, criado num acreditar da sutil caridade material, equivocado em auxiliar o auxiliador, que deveria auxiliar o necessitado.
A besta lamenta, no próprio fracasso do intento.
Para o religioso, um disparate. Tudo bobagem.
Satã conhecia os embaraços que passaria, ao tentar resgatar a alma daquele homem. Refletindo, num pensar ao passado, a besta recorda dos feitos do “bom homem”. E assim prosseguiu o relato.
– Acúmulo de riqueza em detrimento dos desprovidos, abandono familiar... utilização do mal para beneficio próprio... sugestão.
A lista aumentava a cada linha lida.
– Quanta maldade eclode de ti, amigo. – Dizia Satã.O religioso, agora colérico pela descoberta, cerrava o olhar, num trepidar inconstante do corpo aflito, encarando a besta.
– Demônio maldito. – Dizia o homem.
Satã amedrontado, temendo as maldades advindas daquele olhar repousado na ganância, enraizado na vaidade, volta para trás. A besta reflete. “Comportamento distorcido. Ser material, que obscurece o pensamento do eu mental, acreditando numa certeza hipotética. Inexiste o auxílio para quem à verdade desconhece. A tenebrosidade da caridade humana”.
E continua. “Eu, uma criação tola da própria mente humana, forma desumana da inverdade”.
Satã volta ao execrável senhor. Continua na tentativa de aliviar o mal, daquele homem, cuja mente fenece. O religioso, com olhar a circundar Satã, diz:
– Desavença do mundo. Ser miserável. Demônio maldito.
Satã encara-o novamente.
– Demônio maldito, mas querido, trazendo o ouro a ti pretendido, através do medo do incauto, logrado irmão.
– Ataca Satã, àquele homem.
Assim a besta apresenta a tela, num pintar negro, de vermelho sangue. Pedidos em nome dos necessitados. Em outra cena, o velho senhor, com o material recebido, concedendo um desatino destino, distante das orações. A insaciável água barrenta da inverdade. Agora Satã apresenta a figura do religioso, com adornos discordantes com o viver na modéstia. Num paralelo, apresentam humanos, em condições desumanas, cujo corpo lograva inanimado na miséria.
– Sagrado alimento, morte, lamento. Assim, quem é o verdadeiro demônio no teatro da vida? A besta exorcista? Ou o religioso que grita? – Pergunta Satã.
O religioso agarrado na cruz, continua em seus pensamentos.
– Alma imunda. Na persuasão de outrem, o próprio realizar. O medo é inerente ao homem, complementa a besta, complacente.
O religioso se contorce, num gritar intimidante. A cada verdade escutada, seu rosto se deforma, num corpo enrijecido, com membros virados para trás. Na face, o branco gélido, pálido, sem tinta. O inconsciente do religioso o conduz, continuando com maledicências a besta. Essa acusada, pelo acusador desalmado.
Satã, agora exausto, atormentado de tanto desaforo, olha para o religioso, encarando-o.
– Olhe nos meus olhos. Pare de empregar o meu nome. Abstraia desta sua mente, a imaginação doentia a ti colocada, utilizada apenas como alegoria para proferir ao homem, a alegria do viver na inverdade. Volte à realidade. Não fale do inexistente. – Orienta a besta.
No ambiente, o odor inebriante e doce, do sangue fresco. O religioso continua confuso. Satã retruca.
– Você está possuído, mas não por mim, que inexisto. Está possuído pelo seu próprio inconsciente incoerente, passível de repreensão.
– Abandone esse corpo que não o pertence, espírito sórdido. Não é assim que fazem em meu nome? – Pergunta Satã, passando a mão na face do religioso, tranquilizando-o.
– Está melhor compadre? Então segue seu caminho, e não peques mais. – Diz Satã, ao velho amigo.
Uma luz.
– Por quê? Pergunta curioso e flébil, o religioso.
– Meu querido irmão. A calúnia proferida por ti a mim, só fez torná-lo senhor do próprio ardor. – Responde a besta. - E complementa. – Não quero mais ser utilizado como matéria-prima para amedrontar os desprovidos. Todos têm em mim desapreço, mas continuam a utilizar-me, vivendo no pedestal da aparente verdade.
Numa transfiguração de lampejos, Satã se desfaz, em nuvens, pairando sobre o ar, adquirindo a imagem do religioso.
– Sou a sua consciência. O bem e o mal estão no cerne do homem, e não do lado externo da vida. Vá e não peques mais. – Finaliza a besta.
No flamejar da branca luz, dissipasse aquele ser imaterial, pairando no circundar da mente do religioso, adentrando pelos lábios entre abertos. O mal? Comum transcendente, aos olhos daquele senhor.
Satã? A besta? Lorota, bobagens, besteiras. A humana consciência para abster-se das responsabilidades dos atos acometidos, criou o grotesco ser, confeccionado pelos desumanos seres humanos, em tons negros, do pintar discordante, do artista sem arte.
Agora na cama, o religioso desperta no sobressalto. Olha para o alto, sem entender coisa alguma, como tudo em sua vida, mas em seu inconsciente permanece esse grande aprendizado.
Satã, uma alucinação coletiva.

(Conto publicado na Antologia "Contos de Arrepiar" - Edição Especial 2012 - Março de 2012, Câmara Brasileira de Jovens Escritores).
Leia Mais...

A estadia


Por Danilo Pelloso

O cinza permanente aliado com um sol tímido, encolhido e escondido entre as nuvens que formam figuras alegóricas na imaginação criativa de uma criança que olha, apontando o pequeno indicador para que possa ver as emoções do seu grande mundo, em esplendor.
Retribuo a generosidade com um sorriso, tranquilo, o carinho que inexiste a pressa em sair do contraste rosto entre pálido e brilhante.
A criança solta sentimentos discretos, sinceros, sempre com a esperança de continuar na concordância.
Apontando novamente com o pequeno dedo diz-me que o desenho mudara. Agora parece mais um ursinho, daquele que fala e escuta. O melhor amigo para os pequeninos.
Conversas. Observações.
Olho a pequena criança e com sentimentos de perda, mas complacente vou embora para adentrar no meu mundo, não de flores, nem rumores agradáveis.
A estadia.
Naquele hotel sombrio, antigo e imperioso é que vivo um pequenino trecho da minha existência, que transfigurasse relativo por inexistir o conhecer da longevidade do meu próprio ser.
Uma semana que não passará facilmente. Uma semana que lembrarei eternamente.
Poderia estar em outro lugar? No destino o verdadeiro livre arbítrio. Poderia ficar observando a criança a fazer desenhos nas nuvens, mas algo me atraia para aquele local.
Casarão antigo. Marcas dos tempos passados, aflitos, consagrados, vividos. Arquitetura exemplar. Alvitre do século vinte.
Dos adornos da arte barroca ao próprio surrealismo esculpidos nas paredes, nas colunas o próprio destino.
As louças todas decoradas e majestosamente talhadas por um grande artesão de descendência italiana, cuja essência esta nas evidências do trabalho realizado.
Confeccionado em prata envelhecida, e escurecida pelas energias não bem vindas, que permanece naquele local místico, oculto e doloroso.
A prata não irradia beleza. Coberta por uma fina camada escura, de um negro viscoso que apaga seu próprio encanto, antes misterioso.
Acima de um luxuoso conjunto de cerâmica esta o formoso relógio de corda. Estagnado a meia noite. Marca simplesmente a morte do senhor Josef. Do inexplicável a razão do próprio ato.
Morte.
Senhor Josef sempre fora uma pessoa incoerente.
Nas realizações desumanas estava a sua força motriz que o movimentava por entre paredes obscuras e úmidas, de um musgo verde fétido misturado com sangue fresco com odor adocicado e putrefato.
A sociedade ocultava-se de si a própria verdade.
Adorador do enigmático. Do conhecimento oculto. Da obscuridade.
Pai de um menino que semelhante a uma avalanche em montanhas gélidas do ártico, fora apresentado ao mundo espiral de emoções destrutivas.
Discordara da própria existência. Das grandes paixões mundanas o seu próprio desalento. Queria ser grande como o mar, brilhante como o sol e necessário como o ar.
Impedimento do desenvolvimento espiritual. Resta-se apenas o próprio ressentimento.
A própria família. A própria estadia. Tudo igual. Tudo tradicional. Da similaridade a essência da inverdade. Inexistem mudanças.
Manifestação do sublime ser encarcerado no seu próprio pensar.
Homem ríspido, vitimado na própria ignorância. Do ego exacerbado a desesperança de seus atos.
Dona Josef, na inocência a própria morada. Possuidora de um semblante simples, singelo e afetuoso. Complacente com todos.
Expressão da paz frente ao conturbado mundo de emoções corriqueiras. Dona Josef, não tinha denominação própria. Conhecida simplesmente como esposa daquele traste de outrora.
Família tradicional. Dos conflitos clássicos de Josef, o verdadeiro irracional.
Na rigidez das tradições, a chave para as lamúrias dos jovens corações. Seu filho. Criança crescida. Um moço consentido. Estimado coração. Com a mente transtornada de destrutivas emoções a mesma estava.
A dor humana sentida está fundamentada na angústia do conhecimento humano vivido.
O exemplo.
Perece jovem. Moléstia capciosa. Na morte do eu físico a própria libertação do eu metafísico.
Sangue em retalhos de uma vida vivida em farrapos, sofrida.
Todos mortos os que ali estavam com suas imagens em seus respectivos quadros, a contemplar a parede macia de barro.
Pareciam sorrir para mim ao adentrar naquele lugar cuja única presença fora a ausência de coerência.
Casarão.
Grandes corredores iluminados, com candelabros.  Do verde imaturo da luz irradiante, aos campos verdejantes que reluz, mas não naquele lugar imundo.
Corredor sujo de sangue fresco. Corredor em lamento. Choram as crianças a estar, um choro triste escutados no murmúrio do silêncio.
Fragrância fétida de carne incinerada. Não há incenso. Não há nada.
Nos quartos haviam duas camas confeccionadas em madeira de lei com suas cabeceiras adornadas, contando de maneira abreviada, momentos religiosos como a batalha entre o céu e o inferno. A batalha entre o eu físico na dualidade com o eu metafísico. Na busca do equilíbrio.
Observo os quadros e vejo imagens de campos em preto e branco. Não são os mesmos campos verdejantes que os pássaros estão a cantarolar a todo o instante, em meu pensamento antes vibrante.
Campos frios com homem armados. Homens vestidos de uniforme suntuosos a postarem de forma majestosa. Poses de atitudes indecorosas.
Campos cinza, de uma névoa escura de tormentas. A fuligem enfeita todo o ambiente. A fuligem o sustenta.
Era essa a imagem ao adentrar naquele casarão tradicional do Dr. Josef.
Volto as minhas reflexões. Imagens vêm a minha mente.
Pessoas trabalhando descontente. Trabalho compelido? Batente afável? Aprisionados dentro das muralhas da morte.
Gritos.
Máquina da morte. A cinza. Ambiente triste de fuligem. Sinto a fuligem desabar em meu rosto. Incompreensível situação. Novamente experimento a fuligem ruir em meu rosto. Quanta tristeza, quanto desgosto.      
Noites em claro, passadas naquela estadia. Da preocupação do trabalho aos ruídos que ouvia.
Lembranças a todo o momento. Instantes que mesmo não vivenciado fora experimentado por mim naquele lugar suntuoso, mas que escondia um passado tenebroso.
Sentiam-se vibrações. Na estória o próprio enigma. Na presença atípica da energia imaterial, a descoberta da estória encoberta.
Sentimentos bons ou ruins? Inexistem inferências, apenas o fato do sentir.
O casarão gemia. As portas em ruídos. Janelas fechadas abriam. Murmúrios, sussurros, lamentos. Sentia-se a presença em descontentamento. Atrocidades acometidas?
A casa estava viva. Pronta para ser vivida.
Necessitava deixar aquele local indesejado. Meu corpo trepidava ao adentrar em seus aposentos.    
Do declínio do sol, enfatizando o luar tímido e tênue, lamentando a ausência de compreensão.
Chegara à noite.
Escutava uma voz que ecoava pelo corredor a fio, gélido e sem cor. Uma voz. Uma mescla de sentimentos de ódio com clemência.
Chamava-me pelo nome. Não era apenas pelo primeiro, fazia questão de chamar pelo nome inteiro.
No entardecer meu próprio desespero.
Noites e noites em claro observando a mesma cena em frangalhos.
Flashes de um pesadelo.
Cortinas sacudindo, murmúrios iludindo, sorrisos de dor e sofrimento sentidos. Encontrava-me recolhido no canto do aposento, cujo meus sentimentos se expressavam unicamente pelo ato de cobrir o semblante com um lençol velho, degradante.
Ouvidos tampados. Os sons não eram audíveis. Estavam sintonizados com meu eu mental alterado por toda aquela intensa energia psíquica ao meu lado.
Criador ou criatura do próprio medo?
Deixara-me confuso.
Acordara de madrugada, horário apropriado para a liberdade do funesto de uma vida em vicissitude.
Retire-me do quarto para verificar o que estava acontecendo ao lado.
O corredor. Apertei o interruptor. As luzes verdes não acendiam.  Dificuldades, como todas as outras nuancem daquele velho e obscuro casarão.
Problemas era o que existia naquele local inóspito. Elétricos, hidráulicos e agora incorpóreos.
Qual a verdadeira estória daquela do casarão que outra hora poderia ter sido tudo ou mesmo nada?
Havia algo de estranho naquele local. As imagens estampadas nos quadros presos a parede apresentava o casarão como um local marcante na história.
O ambiente estava frio e sentia-se uma atmosfera formada por densas nuvens cinza de um ambiente sombrio com odor adocicado de sangue fresco.
A recordação da fuligem vem a minha mente. Perseguido pelos próprios pensamentos.
Naquele local havia algo de errado que eu mesmo desconhecia. As luzes apagavam e acendiam. Num tom ritmado de acender e apagar, da própria brincadeira esquisita, o meu sofrimento estaria.
O momento.
Naquele corredor ameaçador, ganhando forma de um homem trepido de cabelos curtos, olhos negros, com face pálida, vestindo um uniforme em desuso, acompanhado de insígnias.
Mãos a manipular um objeto.
Aos passos lentos, com um sorriso no rosto, sombrio, tenebroso.
As luzes verdes acendem e apagam. Piscando numa frequência ritmada dos passos compassados do vulto que trepida, chegando cada vez mais perto de onde eu estaria.
Quem é aquele velho homem? Teria tempo para responder essa indagação?
O ser estranho não tocava o solo. Flutuava.
O vulto a cada minuto aproximasse de mim. Trepidando no ritmo das luzes, sempre acima do solo, flutuando, no mesmo não tocando.
Imagem atormentada de uma situação inusitada.
Não falava, não andava, levitava. A cada minuto se aproximava. Sorrindo com um objeto nas mãos, vinha na minha direção. Da própria consciência esquecida, mas agora requerida.
Escutam-se vozes. Ruídos, murmúrios.
Gargalhadas.
Com um rosto pálido, sem tinta a ser gasta, paralisado estou, no meio ao corredor, com aquele ser do outro mundo num contraste do branco pálido do rosto com o negro da roupa em desconforto.
Estou amedrontado. Sempre acreditara nos seres incorpóreos, mas nunca tive o desprazer do convívio dos que me atordoam.
Encaro aquela figura que é a causa da minha própria dor.
Todo vestido de preto. Negro fúnebre. O cheiro da morte se aproxima.
Na alternância das luzes verdes o vulto estava cada vez mais perto. Da macabra veste aos sorrisos que circunda a ironia e o sarcasmo. Do vulto incerto a personificação do próprio anjo da morte.
Trepidando em minha direção.
Com o coração exacerbado de destrutiva emoção, fazendo circular em minhas veias o sangue da profunda incompreensão.
Afastei a passos lentos. Quanto mais afastava, mais o vulto perto de mim se aproximava.
O que seria? Não ha tempo de pensar, apenas o sentir.
O vento continuava a assobiar um som desarmônico de dor e desesperança. No cantar da ave noturna o próprio destino. Era o principio e o fim dos meus tormentos.
Janelas, portas batendo, abrindo e fechando como forma de aviso da inexistência de algo além desse mundo, em desalento.
Nas paredes o sangue escorria. Uma pintura artística. A realidade se aproximava.
No sótão ruídos, nos porões lamentos. Na sala gargalhadas de pessoas em contentamento. No corredor a aflição de vivenciar o desconhecido.
Ensaio metafísico?
Na sala.
Algazarra da burguesia. Todos vestidos a caráter. Dos vestidos da duquesa, a majestosa vestimenta da rainha. Vinhos, champagne.
Os cavalheiros com seus uniformes militares mostrando toda a vitalidade.
Havia apenas algo em comum em toda a situação.
As pessoas eram possuidoras de uma cútis aveludada pálida, branca, sem tinta, sem graça, sem esperança na própria raça.
Mesmo estando no século vinte e um, as pessoas pareciam viver em outra época, mais precisamente na década das grandes guerras. Dos conflitos armados a comemoração dos grandes soldados.
Estaria eu alucinado?
Meu rosto começa a ficar pálido. Estou mudando. Transformando. A vestimenta é substituída por um uniforme militar.
Os quadros estão todos em branco. Onde estariam às pessoas dos quadros de antemão? Estavam dançando naquela grandiosa comunhão.
Da tranquilidade diária a macabra ocasião noturna.
Não conseguira dormir naquela estadia. Rouba-me a vitalidade.
Lembranças vêm ao meu consciente, de toda aquela situação: da perseguição do vulto no corredor, a dança de todos aqueles mortos em esplendor.
Chego a pensar que seria mera coincidência, ou eu estaria morto na própria essência?
Sou como os outros. Naquela dança fatídica estou eu a dançar. Com o quadro em branco na parede a estar. Na cor sem graça da face pálida a verdadeira infelicidade da própria raça.
Não sei o que dizer e ao menos o que pensar. Sei que na dança com os mortos não quero mais participar.
Dona Josef, por favor, veja quanto eu devo para que neste lugar não tenha mais o desprazer eu de estar.
Dona Josef desfazendo seu corpo agora incorpóreo de uma fumaça densa de névoa escura, despede-se de mim sorrindo e murmurando não ser possível deixar a estadia porque lá seria a minha morada de todos os dias.
Surge uma menina toda vestida de branco, flutuando, com um vestido arrastando no chão.
O arcanjo.
Convida-me a adentrar o mundo das lembranças. Respondo que não. A menina, com sorriso em seu rosto, desaparece juntamente com a minha esperança.
Não consigo compreender. Estaria eu alucinado? Seria apenas um entre os mortos?
Dançando com os soldados, oficiais, com o mesmo rosto pálido, sem tinta, sem graça, sem nada. Apenas mais um entre os demais.
Apenas um pedido.
A permanência do meu quadro cravado na parede, para estar no local onde sempre deveria estar juntamente com os meus ancestrais.
Local incerto para a pessoa certa. Dos fatos acometidos nos campos não floridos a permanência no próprio martírio.
Nunca conseguira sair daquele local funesto e degradante. Acostumasse. Todas as noites, eu manifesto com gargalhadas me apresento.
O que era tenebroso tornou-me de bom gosto. Tudo depende da ocasião.
Novos visitantes. O mesmo vou convidar para o mesmo continuar na estadia morar.
Leia Mais...

Menininho

- Ele estava escondidinho em um canto, em meio a outros brinquedos velhos e sujos... Bichos de pelúcia, bonecas de plástico duro, vinil, estas coisas... O que chamou a minha atenção foi o fato de ser um boneco, um "menino".  Bonecas são, em sua maioria, "meninas".  E ele era um boneco intrigante, tinha um olhar diferente... Um olhar meigo, sabe, mas ao mesmo tempo estranho... Triste, eu acho. Eu não sei bem como definir. Na época não foi isto que eu julguei importante, mas sim o capricho nos detalhes... A roupinha era perfeita, tinha até botõezinhos minúsculos e uma gravatinha borboleta vermelha, muito engraçadinha, apesar de desbotada.  Ele estava todo sujo, encardido, porém mantinha uma certa dignidade. Tinha bochechas sardentas, olhos verdes e o cabelinho era ruivo, bem ralinho... Eu gostei tanto dele que decidi comprá-lo para o meu filho.  Pensei que ficaria muito fofo em seu quarto.
- Eu procurei o dono do antiquário e o encontrei atrás de um balcão, lendo o jornal.  Era um velho simpático que vestia uma roupa fora de época, com suspensórios... Lembro que achei aquilo engraçado! Tudo nele parecia tão antigo quanto os objetos da loja... Eu disse ao homem que queria comprar o bonequinho, ao que ele respondeu movendo a cabeça afirmativamente, sorrindo.  Ele levantou e foi até a prateleira pra pegar o boneco, e o trouxe em seguida, soprando-o e sacudindo-o, tentando melhorar o seu aspecto, sabe, porque o boneco estava bem surrado, mesmo. E eu disse ao homem “Olha, não importa que esteja sujo, eu o quero mesmo assim”.  E ele disse que era uma boa escolha, pois se tratava de um brinquedo raro e especial, feito na França por um tal de Jules Storner, ou Stonner, algo assim, que ficou  conhecido por seus bonecos "que pareciam ter alma".
- Enquanto ele me explicava a origem do boneco, ele o movia de um lado ao outro, como que tentando fazê-lo funcionar, até que conseguiu fazer o bonequinho emitir um abafado "maman", o que fez eu me apaixonar ainda mais por ele. Ah, eu fiquei encantada mesmo, e foi só quando o homem, que se chamava Constantino, foi só quando ele colocou o menino, quero dizer, o boneco sobre o balcão, que eu percebi que nós ainda não havíamos conversado sobre o preço. E foi ai que eu me dei conta de que isso seria um problema, que devia ser um brinquedo caro e eu tive medo de não poder pagá-lo. Eu não quis interromper o velho Constantino enquanto ele enumerava as façanhas do tal bonequeiro, falando sobre a qualidade de seus bonecos, o detalhamento das roupas, cabelos, e por ai vai... E ele disse, “Os cabelos são humanos...” E eu pensei, “Cabelos humanos?” Ora, que fossem ou não cabelos humanos, isso não me importava e, mesmo que eu hoje me lembre de ter achado isto nojento, eu queria o boneco de qualquer jeito.
- Quando ele continuou falando eu não pude mais esperar e perguntei o preço. Eu notei que ele não gostou muito da minha pergunta, ele fez uma cara ofendida, mas o que eu podia fazer? Eu precisava saber o preço... “Quanto?”, ele respondeu me devolvendo a pergunta. “Ah!”, ele exclamou, “O dinheiro, sempre o dinheiro...” Resmungou mais umas coisas que eu não entendi... E eu me senti incomodada com o comentário que me pareceu debochado, mas antes de eu responder ele virou e olhou bem nos meus olhos e disse: “Tu não podes pagar...” E eu não pude acreditar na audácia dele! Eu não acreditei no que ouvi e me preparava para ofendê-lo muito mais do que ele me havia ofendido, quando ele terminou dizendo que eu não poderia pagá-lo com dinheiro, o que eu não entendi...
- Eu já não sabia se devia ficar zangada ou magoada; se devia continuar ouvindo aquele homem ou ir embora. Mas o Constantino mantinha o seu olhar firme em mim e eu já beirava o pânico quando ele tentou explicar o que tinha me dito.  “Minha filha”, ele disse, “este boneco custa caro, sim, mas eu sei que, apesar de tu não poderes pagá-lo hoje, és tu quem o mereces”. Eu fiquei ali, parada, ouvindo ele explicar... “Afinal”, ele continuou, “até hoje foste a primeira a encontrá-lo e a desejá-lo tanto e, sendo assim, em breve ele será teu...” Ele ficou me enrolando, eu pelo menos achei que ele queria me enrolar, sabe? Quanto, eu teimei, eu perguntei de novo, e ele, contrariado, ele me disse o preço, e o preço era realmente impagável.
- Eu não tinha todo o dinheiro, nem teria como consegui-lo, e eu tentei dizer isso pra ele, eu disse que não podia pagar pelo boneco.  Daí ele ficou balançando a cabeça, insistindo que eu era a compradora certa, que o boneco havia me escolhido!  Ora, como eu poderia ser a compradora certa? Eu não tinha como investir tanto dinheiro em um brinquedo! O homem enfim desistiu, parou de insistir, sorriu e colocou o menino numa das prateleiras de uma cristaleira atrás do balcão.  Daí ele virou e disse que o boneco ainda seria meu. Eu olhei o menininho uma última vez antes de sair da loja, me despedi e depois eu sai. Eu lembro que chovia muito, uma chuva bem chata, fininha...
- Eu fiquei muito chateada, viu? Eu fiquei muito triste, pois eu nunca havia gostado tanto de um brinquedo, nem quando eu era criança, até ver aquele boneco.  E naquela noite o meu humor estava deprimido, eu também fiquei com dor de cabeça e não ouvi o que meu marido dizia, era alguma coisa sobre ações, investimentos, coisas assim, coisas que não me interessavam, pelo menos não naquele momento.  Eu tentei contar do boneco, mas ele não me ouviu, ficou falando essas coisas que eu não queria ouvir. Eu só pensava no boneco. Eu sonhei com ele.  Foi um sonho estranho, lembro que nele eu conseguia comprar o boneco e colocá-lo na estante no quarto do meu filho, na prateleira mais alta para que ele não pudesse pegá-lo. No sonho meu filho dizia "Mais alto, mamãe, mais alto!" e eu não entendia se o que ele queria era que eu colocasse o boneco mais alto ou o que, eu não lembro direito...
- Eu sei que eu passei uma semana perdida entre a tristeza e a ansiedade, pois o velho dissera que o boneco seria meu, mas como?  Eu ficava pensando, como eu poderia pagar? Meu filho não havia se interessado pela história do boneco e meu marido também não deu muita importância quando eu tentei contar naquele dia.  Mas no final da semana eu já estava conformada, eu já sabia que o boneco não seria meu coisa nenhuma, que o velho era só um bom vendedor e não um gênio ou um mágico que poderia mudar a minha conta bancária.  Eu estava tão chateada e, pior, nem a minha melhor amiga pôde entender que diabos eu queria tanto com um boneco velho! Eu continuava querendo o boneco, eu pensei até em roubá-lo.  Mas o tempo passou e eu acabei desistindo dele, sabe? Então aconteceu algo improvável... O meu marido ganhou muito dinheiro, mas muito dinheiro, mesmo! Aquela conversa dele que eu havia ignorado era sobre um investimento que ele havia feito e que tinha dado certo! Nós ficamos ricos! O senhor pode acreditar nisso? Nem eu acreditava. Ganhamos muito, muito dinheiro! E o meu marido, segurando a garrafa de champanhe recém aberta, disse que agora eu podia comprar "a tal boneca" que eu tanto queria!  Olha só, no final ele tinha ouvido a história, tinha entendido meio errado, mas tinha ouvido! E eu pensei, sim, que eu poderia, e eu não conseguia acreditar que poderia comprar o bonequinho!
- No outro dia, bem cedo, eu já estava pronta pra buscar o boneco, sabe? Mas dai eu pensei, e se o velho tiver vendido? Eu me apavorei, porque eu não tinha pensado nisso antes, que ele podia ter vendido o boneco para outra pessoa! Então eu fui logo até a loja e só me acalmei quando eu vi o boneco no mesmo lugar em que Constantino o havia posto.  O velho sorriu quando me reconheceu! E eu disse, “Eu vim buscar o boneco!” E ele respondeu “Eu não disse que ele seria teu?” E quando eu pude segurar, finalmente, o bonequinho em minhas mãos, eu acreditei!  Soprei devagarinho em sua carinha, afastando um pouco da poeira.  O Constantino começou a falar um monte de coisas e eu nem ouvia, eu só pensava que agora o boneco era meu. Por fim, o velho me recomendou um restaurador e eu peguei o cartão e enfiei na bolsa, sem nem olhar. O boneco era meu! Eu só pensava que o bonequinho finalmente era meu!
- Eu cheguei em casa e fui procurar o lugar ideal para colocar o boneco, mas era óbvio que ele destoava de toda a decoração e tive que, como eu tinha pensado inicialmente, colocá-lo no quarto do meu filho.  Eu mostrei o brinquedo para o meu filho e ele não gostou muito, resmungou que boneco era coisa de menina.  Eu insisti e só pude convencê-lo a deixar o boneco em seu quarto ao prometer-lhe um novo videogame.  Agora podíamos comprar um novo videogame, meu deus, e o que mais ele quisesse! Tínhamos, enfim, dinheiro! Logo a gente se mudou para uma casa maior e o meu filho foi alojado em um belo quarto com vista para um jardim bem cuidado, com flores e até beija-flores! Nada mais de janelas para um paredão encardido.  Os móveis foram escolhidos pelo conforto e funcionalidade, não pelo preço, como sempre era antes.  E no quarto novo, no alto de um dos armários de brinquedos, eu coloquei o boneco. Eu não queria que o meu filho o pegasse, pois poderia estragá-lo.
- Dizem por ai que dinheiro não traz a felicidade... Só sei que agora fazíamos coisas que antes ficavam só na nossa vontade!  Comíamos bem, nos vestíamos direito, tínhamos conforto. Até viajamos! Meu filho estava estudando em uma ótima escola e o meu  marido agora se dedicava a negócios selecionados. Nada mais daquilo de aceitar qualquer cliente, qualquer falcatrua. E eu tinha o meu tempo dividido entre a família e o meu hobby, a arte.  Eu sempre gostei muito de arte, sabe? Pintura, escultura, essas coisas, mas eu nunca pude fazer... Tudo era muito caro; as tintas, os cursos... E eu agora pintava telas, esculpia... Eu frequentava cursos, pesquisava técnicas e pintava e esculpia cada vez melhor. E tudo parecia ir bem, viu, apesar de que meu marido ficou um pouco distante, meio esnobe, não sei... Mas estava tudo bem, até que eu notei que meu filho estava mudando...  Seguidamente ele ficava deprimido, muitas vezes se recusava a comer. Quando comia, ficava enjoado. Ele começou a ir mal na escola e ficavam me chamando pra conversar, queriam saber se havia alguma coisa errada em casa, essas coisas. No início eu não me preocupei muito, eu pensei que era coisa da idade, coisa de criança mimada.  Eu tinha um monte de coisas pra fazer e acabei esquecendo disso, envolvida com as coisas de casa...
- Só que meu filho foi piorando. A falta de apetite se agravou e ele emagreceu muito, muito mesmo.  O guri não queria mais comer, quando comia vomitava, e aquilo não melhorava com nada! O guri estava cada vez mais pálido e a gente indo de médico em médico, sem ter idéia do que fazer, com mãe e sogra dando opinião, sem que nada ajudasse... Então me indicaram um médico que diagnosticou uma anemia profunda.  Meu filho teve que ser hospitalizado. Recebeu sangue, tomou um montão de remédios, mas não melhorou. Não melhorou nada! Meu marido podia pagar qualquer médico, qualquer tratamento, só que nenhum resolvia e o nosso filho piorava.  Não sei mais se era anemia, mesmo, a doença dele. O que sei é que a gente via a doença consumindo ele, e ele definhou, definhou, até que... Até que ele morreu.  Meu filho morreu e eu não pude fazer nada, absolutamente nada.  Nós tínhamos dinheiro, é certo.  Mas havíamos perdido o nosso filho.  E a gente não entendia... Ninguém entendia o que tinha acontecido.
- Foi tudo muito, muito difícil.  Eu havia largado tudo, sabe?  Larguei a pintura, a escultura, a casa... Deixei tudo de lado, inclusive o meu marido.  Eu não tinha tempo, eu só me dedicava ao meu filho, cuidando dele, acompanhando o tratamento, controlando tudo.  Meu marido, coitado, ele achava que a culpa era nossa... Mas culpa de que?  Não havíamos feito nada de errado! O dinheiro que ganhamos era digno.  Eu não entendia o porquê de sermos punidos! E eu não aceitava perder meu filho por algo que não fizemos, e nós brigamos muito por causa disso, viu? E eu comecei a achar que ele havia mentido pra mim, que o nosso dinheiro não era honesto... Mas não fazia mais diferença... Meu filho estava morto... O velório foi desesperador, doído demais... Quando o caixão desceu eu só queria morrer, porque eu não podia aceitar ter perdido o meu filho e nada nem ninguém podia me consolar...
- Depois do enterro a gente voltou pra casa.  Eu não conseguia entrar no quarto do meu filho.  O quarto ficou fechado um tempo, sem que eu conseguisse entrar. Então teve o dia em que eu tive que entrar no quarto dele, sabe, pra limpar, arrumar umas coisas, separar alguns brinquedos e roupas pra doar. E enquanto eu orientava a faxineira na limpeza, eu olhei para o boneco, a luz do sol o iluminava e o destacava dos demais brinquedos...  Eu achei aquilo estranho... Havia alguma coisa diferente nele, mas eu não pude definir o que era. Então eu o peguei e o olhei e percebi que suas cores estavam renovadas! Como? Ninguém havia mexido nele, inclusive eu nem havia falado com o restaurador que o Constantino me indicou.  Eu achei que era a luz, que eu devia estar enganada, apenas isso... E me aproximei da janela pra vê-lo melhor e eu vi! Não havia dúvida de que o boneco havia mudado! Não só as cores das roupas estavam novas, como a porcelana também! E os cabelos? Os cabelos estavam castanhos, da mesma cor dos cabelos do meu filho!
- Eu finalmente entendi tudo... Agora eu sabia que o boneco estava lá, este tempo todo, quietinho, sentadinho, matando o meu filho! Ele era o responsável pela morte do meu filho, ele era o assassino! Eu não admitia isso, eu permanecia calada, protegendo-o, pois eu o amava! Eu amava o bonequinho! Eu via o meu filho definhar enquanto o boneco renascia, os olhos castanhos brilhando, a pele reluzindo, branquinha, as bochechas rosadas, os cabelos tornando-se sedosos, escuros! Não, eu não tinha nenhuma dúvida, o boneco havia matado o meu filho! Eu não sei como, mas ele sugou a vida do meu filho e eu não fiz nada para impedi-lo! Nada! O senhor acredita nisso?! Eu assisti a morte do meu filho como cúmplice de um boneco amaldiçoado, o senhor me entende? O boneco estava novo! NOVO, o senhor entende isso? O senhor compreende isso, doutor? Eu deixei o boneco matar o meu filho! EU DEIXEI O BONECO MATAR O MEU FILHO!!!
- Nenhuma melhora no quadro, doutor?
- Nenhuma, infelizmente.  Ela insiste em negar que matou o próprio filho, insistindo que foi o tal boneco.
- Que boneco era esse, afinal, doutor?
- Nunca soubemos.  Não encontramos nenhum boneco como o que ela descreveu.
- E o tal Constantino?
- Também não.  Nem o antiquário, nada.  O marido procurou, a nossa equipe...  Até mesmo eu, confesso, procurei.
Em uma outra cidade, em um antiquário, um rejuvenescido Constantino dizia a uma mãe encantada com um esmaecido boneco de porcelana: “Minha filha, este boneco custa caro, sim, mas eu sei que, apesar de tu não poderes pagá-lo hoje, és tu quem o mereces. Afinal, continuou o homem, até hoje foste a primeira a encontrá-lo e a desejá-lo tanto e, sendo assim, em breve ele será teu...”

[karin k. carteri]

Leia Mais...

Hotel Califórnia

No bar do hotel, um antigo hóspede contava a sua história para o atencioso forasteiro:
– Foi na tarde em que rompi com Jane por motivos que nem me lembro mais, que peguei a minha moto e segui a esmo pela auto-estrada por mais de quatro horas.
Em meio a escuridão, o vento fresco que soprava meus cabelos trazia com ele o cheio das colitas, uma espécie de planta indiana, que se alastrava pelos campos exalando um odor tão cálido que poderia até ser capaz de aquecer meu coração petrificado.
As horas avançavam e a minha cabeça ficou pesada, a visão turva e os sentidos entorpecidos por causa da noite.
Eu precisava parar para descansar, mas não havia nada além do breu noturno e do asfalto infinito, que corria iluminado sob as duas rodas da potente Harley-Davidson.
Praguejei quando o tanque esvaziou, e do acostamento eu acenava freneticamente para os carros que passavam vez ou outra pela escura rodovia.
Muito tempo havia passado. Não sei precisar quanto, mas acredito que há mais de duas horas eu tentava em vão ser socorrido por algum motorista bondoso.
Cansado e dominado pela involuntária letargia noturna, eu me sentei à beira da estrada sob o olhar debochado do farol apagado da minha moto inativa.
Enquanto eu era estorvado por um silêncio tão intenso quanto os sonhos de um defunto, minha visão fora abordada por gêmeas luzes amarelas que gradualmente se aproximaram acompanhadas pelo ronco do motor do caminhão arrebentando a quietude.
Sem que eu esperasse, o veículo parou diante de mim e um senhor assustadoramente feio se deixou revelar pela janela lá no alto.
Coloquei-me de pé e fui me aproximando. A luz da lua destacava sua pele deformada e um arrepio desceu pela nuca quando num sorriso horripilante ele mostrou os dentes empoleirados que lembravam as lápides de um cemitério descuidado.
Tentando ignorar o calafrio que percorria pela espinha, expliquei que a gasolina havia acabado e ele disse que por sorte tinha um galão do combustível escondido na boléia. Costumava transportá-lo para ajudar os motoristas distraídos que ficavam estacados na estrada assim como eu estava.
A aparência nefasta do homem fora amenizada pela sua gentileza. Como se lesse meus pensamentos ou enxergasse o meu cansaço, comentou que logo a frente havia um hotel onde eu poderia descansar. Apesar de não ter energia elétrica, era bem aconchegante e convidativo. Antes mesmo que eu pudesse abastecer a Harley-Davidson, o gentil e pavoroso caminhoneiro seguiu o seu caminho desaparecendo estrada a fora.
Não sei dizer se fiquei mais aliviado quando o homem partiu ou quando a moto pegou, mas o fato é que assim como ele indicara, o hotel estava lá.
Engraçado eu não tê-lo percebido antes. Tenho absoluta certeza que do ponto onde eu estava, poderia ter visto o hotel devido as luzes tremeluzentes que brincavam nas janelas.
O torpor sonolento deu lugar a um êxtase hipnótico quando na entrada eu a vi.
Com as curvas de um Mercedes 1969 e um belo par de olhos castanhos, Tiffany me recepcionou dizendo: “ Bem vindo ao Hotel Califórnia” e eu pensei comigo mesmo se aquilo era o paraíso, ou o inferno.
Então ela acendeu uma vela e me mostrou o caminho até o quarto.
Espelhos no teto, champanhe rosa no gelo, um lugar tão encantador quanto o rosto de Tiffany me deu as boas vindas.
Mesmo exausto, não pude resistir aos encantos daquela mulher e a tomei como teria tomado Jane antes de partir para sempre naquela tarde.
Eu me sentia ótimo, como se tivesse dormido por horas e recuperado as energias, porém meus olhos não haviam se fechado por nem um minuto sequer. Sem que eu possa explicar, de uma hora para outra, Tiffany não estava mais lá comigo.
Ao sair do aposento eu pensei ouvir vozes adiante no corredor: “Bem vindo ao Hotel California” e o som de uma musica alegre me guiou até um salão onde garçons desfilavam com suas bandejas e hóspedes dançavam despreocupados.
Rapazes se enroscavam sensualmente em Tiffany, que demonstrava a mais plena satisfação voluptuosa. De repente a dança fora substituída por uma orgia descontrolada e todos foram capturados por um frenesi inusitado.
Observando as cenas explícitas que me enchiam os olhos, demorei a perceber a presença do horripilante caminhoneiro que mais cedo me socorrera.
Parado do outro lado do recinto a me fitar, ele sorria sinistramente com seus dentes encavalados e então tudo começou a ficar claro.
De alguma forma, meus olhos foram abertos para enxergar o que realmente acontecia, e quando caiu a mascara da ilusão, vi que não somente Tiffany como todos os presentes eram hórridos mortos-vivos que se esfregavam uns nos outros se desmanchando em carne putrefata.
Tentei fugir, achar uma saída, me livrar do pesadelo, mas nada do que fiz adiantou. O homem de dentes medonhos jamais deixou ninguém sair. Há tempos temos tentado detê-lo, mas chegamos a conclusão de que esta é uma façanha impossível.
Somos todos prisioneiros do nosso próprio ardil.
Hoje minha carne morta também se desfaz. Sinto as larvas passearem pelo meu interior. O problema é que quando atingimos um certo grau de decomposição, ela estaca e assim jamais seremos totalmente consumidos.
Bem, eu não sei qual é a sua história ou como veio parar aqui, mas não é um lugar ruim. Você pode se divertir a valer neste hotel e com o tempo acaba se acostumando. Agora abra bem os olhos e veja a realidade. Aproveite a sua estada, pois ela será eterna. Bem vindo ao Hotel California, caro amigo!
Ao terminar a narrativa, o antigo hóspede presenciou mais uma vez a mesma cena se repetir. Isso sempre acontece quando os recém chegados começam a enxergar a verdade. Eles correm desesperados, tentam achar uma saída, gritam, choram, mas acabam aceitando. Não têm alternativa.

Leia Mais...

A casa de bonecas


Por Thiago Tavares

Casos de desaparecimento acorrem, rotineiramente, ao redor de todo o mundo e, no Brasil, não é diferente. Por aqui, cerca de 40 mil crianças e adolescentes desaparecem por ano e, aproximadamente, 10% a 15% desse total de jovens permanecem com o paradeiro desconhecido. Uma triste estimativa que atinge famílias de todas as classes sociais do país.

A Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPECA) recomenda que em casos de desaparecimento, o primeiro lugar onde devemos procurar são os arredores do local no qual o indivíduo supostamente sumiu. A polícia aconselha também que seja realizada uma rápida busca pelas delegacias de polícia, hospitais e pronto-socorros, além de registrar um boletim de ocorrência informando à DPECA ou ao Conselho Tutela sobre o desaparecimento do jovem. Embora algumas pessoas desconheçam, não é necessário esperar 24h para registrar o boletim de ocorrência, pois ele pode ser feito a qualquer momento. As primeiras horas que sucedem o sumiço são essenciais para aumentar as chances de sucesso na localização e proteção do desaparecido.  

Renata, funcionária pública do estado, moradora de Linhares, realizou todos esses procedimentos para tentar localizar sua filha, de apenas 8 anos de idade, mas, até hoje, a pequena Isabela faz parte do percentual de jovens do Brasil que continuam desaparecidos. A estória que vou lhes contar aconteceu no ano de 2007, em Espírito Santo, e versa sobre um sinistro caso de desaparecimento.

Era final de tarde quando Renata olhou para o relógio, pendurado sob a porta, e respirou aliviada. 18:30h era o que os ponteiros indicavam. Rapidamente, ela guardou seus pertences, desligou o computador, se despediu dos colegas de trabalho que iriam fazer hora extra e então desceu as escadas do Tribunal de Justiça. Graças ao horário de verão o dia ainda estava claro e a rua, Alair Garcia Duarte, bem movimentada. Fatores que motivaram Renata a regressar, a pé, para casa. Normalmente voltava de ônibus, no entanto, não era nenhum sofrimento percorrer, na caminhada, a distância de pouco mais de três quarteirões.

Ao longo da calçada, vendedores ambulantes e vitrines de loja apresentavam suas promoções de fim de ano e Renata acabou resolvendo fazer umas comprinhas (A famosa terapia de relaxamento que as mulheres costumam realizar quando tem um dia difícil). Entrou numa loja de calçados que tinha um enorme letreiro onde lia-se: Liquidação no interior da loja. Após uns 30 minutos, a funcionária do estado, saiu de lá carregando uma bolsa onde continha dois Scarpins e uma sandália rasteirinha. Perceptivelmente, sua fisionomia era outra. Já nem lembrava mais a mulher que tivera um dia de trabalho sobrecarregado. Renovada ela seguiu adiante e não pretendia comprar mais nada, contudo, ao ver a loja de antiquários do senhor Gilberto ainda aberta, não resistiu e entrou, relembrando que fora, Humberto, seu saudoso avô quem a ensinara a apreciar objetos antigos.

– Boa noite, senhor Gilberto! – cumprimentou após passar pela porta. – O que tem de novidade?

O senhor que, sentado atrás de um balcão, tentava concertar um rádio vitrola, não resistiu e então respondeu:

– Desculpe, mas se quer novidades, você esta no lugar errado! – Isso aqui é uma loja de antiguidades! – brincou ele com um enorme sorriso no rosto ao ver quem entrava em sua loja. – Olá minha querida! – disse ele, em seguida, largando de lado o que fazia. – Como vai a minha freguesa predileta?   

Renata sorriu.

– Vou bem, obrigada!

– Já faz alguns dias que não a vejo!

– Pois é senhor Gilberto! Estou tendo uma semana difícil no trabalho... você sabe como é!

– Eu entendo! – respondeu o velho feliz em vê-la novamente. – Venha comigo! Vou lhe mostrar os produtos que chegaram ontem pela manhã. – Tem uma mesinha, redonda, de centro que acho que você vai amar!  

Renata seguiu, animada, aquele senhor, de andar vagaroso, até atingir os fundos da loja onde lhe foi apresentado às mobílias antigas que haviam chegado, no entanto, foi algo diferente que chamou sua atenção. Uma casa de bonecas, ricamente detalhada, que estava sobre uma estante de carvalho.

– Que linda! – exclamou ela, encantada.  

– Concordo plenamente. Essa é uma mesa muito rara! – respondeu Gilberto acreditando que sua cliente falava da mesinha, de centro, que ele apresentava. – O que mais me impressiona é o excelente estado de conservação que essa peça do século XIX ainda ostenta e...

– Desculpe senhor Gilberto, mas eu me referia sobre aquela casa de bonecas! – interrompeu Renata, já sabendo que se não fizesse isso iria ouvir, por um bom tempo, a história sobre uma mesinha de centro.  

– Ah! Por que não disse logo?! – inquiriu, meio sem jeito, indo até a estante de carvalho. – Venha! É ainda mais bonita de perto.

Renata obedeceu.

– Nossa! – balbuciou ela olhando, pelas janelinhas, o interior da casa repleto de bonecas.

– Parece até uma casa de verdade, não acha?

– Sim. Os detalhes são incríveis! – respondeu admirada. – Sempre quis ter uma dessas quando criança, mas meus pais nunca puderam comprar uma para mim... era muito caro para o curto orçamento de nossa família.

– Bom, nunca é tarde para realizar um sonho!

– Não senhor Gilberto... eu já estou muito velha para essas coisas, entretanto, acho que posso dar essa alegria a outra pessoa.

– À pequena Isabela, eu suponho! – arriscou Gilberto.

– Exatamente!

– Pois eu acho que ela vai adorar!  

– Espero que sim! – Quanto custa?

– Ainda não estipulei um valor! Eu a recebi, ontem à noite, de um antigo cliente, colecionador de antiguidades.

– Hum... entendi! – Que tal R$ 100,00?

– Não era bem o preço que eu tinha em mente, mas acho que posso fazer essa promoção para uma cliente como você! – disse Gilberto apanhando a casa de bonecas para colocá-la numa caixa.

Conversando trivialidades, os dois retornaram para o balcão da loja e ali fecharam negócio. Renata entregou o dinheiro e já se despedia quando foi tomada por uma, súbita, curiosidade:

– Diga-me senhor Gilberto! – Por que motivo esse seu antigo cliente, colecionador, se desfez de uma casa de bonecas tão linda como esta?

– Ele não tinha mais motivos para tê-la! – respondeu o velho meio pesaroso em dizer aquilo. – A filha dele desapareceu há pouco mais de três anos.  

– Nossa! Que trágico!

– Sim! O nome dele é André. Além de meu cliente é também um grande amigo e acompanhei de perto seu sofrimento. Desesperado, com o sumiço da filha única, chegou a pensar em se matar, mas, felizmente, André aceitou meu convite e entrou para uma religião que esta fazendo muito bem a ele. Esta aprendendo a lidar com a dor e, finalmente, criou coragem para entrar no quarto que era da menina. Aos poucos ele esta se desfazendo dos objetos que podem ter serventia para outras crianças.

– Eu não o conheço, mas, por favor, senhor Gilberto, dê meus sentimentos a ele. Não consigo nem imaginar qual seria a minha reação se algo parecido acontecesse com Isabela.  

O telefone da loja tocou e Gilberto, pedindo a Renata que aguardasse alguns instantes, interrompeu a conversa para atendê-lo. O telefonema parecia ser a respeito do rádio vitrola que estava sobre o balcão e que ainda não havia sido consertado. O diálogo ao telefone se estendeu e Renata, incomodada com a espera, olhou em seu relógio de pulso que já indicava 20:00h. Decidiu então que iria para casa e acenando para Gilberto, que explicava ao cliente os motivos pela demora no reparo do aparelho, prometeu que voltaria outro dia para que pudessem continuar a conversa.  

Levando, numa das mãos, uma bolsa de sapatos e, noutra, a caixa contendo seu sonho de infância, Renata deixou a lojinha de antiguidades. A casa de bonecas era pesada, mas como o antiquário era na esquina de sua rua, não foi preciso suportar o esforço por muito tempo. Chegou a casa, abriu a porta e viu sua empregada andando, de um lado para o outro, com o telefone sem fio nas mãos.

– Renata! – exclamou ao ver a patroa entrar. – Estava preocupada! Tentei te ligar, várias vezes, mas esta caindo na caixa postal! – Aconteceu alguma coisa?!   

– Não Gabi, está tudo bem! – Desculpe não ter avisado que iria chegar mais tarde, mas é que resolvi, de última hora, fazer umas comprinhas. – explicou Renata colocando a caixa e a bolsa sobre a mesa da cozinha. – Devo ter esquecido meu celular no trabalho... estava com tantas coisas na cabeça que nem me atentei para isso. – Cadê a minha filhota?

– No quarto, assistindo desenho animado.

Isabela, gargalhava, assistindo Tom e Jerry, quando sua mãe adentrou no quarto trazendo a caixa que logo fez a menina esquecer a TV.

– O que é isso, mamãe? 

– Um presente para você! – respondeu Renata com um enorme sorriso, de mãe coruja, nos lábios.

A menina ficou encantada ao abrir a caixa e ver a linda casa de bonecas que estava contida ali dentro. Irradiando felicidade, pediu para que sua mãe a deixasse chamar a amiguinha Geovana para brincar. Renata olhou no relógio e considerou que ainda não estava tão tarde para sua pequena vizinha fazer uma visita. Após receber a autorização, Isabela disparou em direção ao primeiro andar e apanhou o telefone.

– Alô!

– Olá senhora Bianca! Aqui é a Isabela.

– Oi Isabela! Tudo bem?

– Tudo! Estou ligando para perguntar se a Geovana pode vir até a minha casa para brincar comigo com o presente novo que minha mãe me deu!   

– Você tem um presente novo?! – E qual é? – perguntou Bianca achando graça na maneira educada como a menininha se expressava.

– Uma casa de bonecas! E já vem com um monte de bonecas dentro!

– Nossa, que legal! – Vou levar a Geovanna até aí para vocês brincarem um pouquinho, mas é só um pouquinho mesmo, por que amanhã vocês duas tem que ir para escola, bem cedinho.

– Obrigado, senhora Bianca! – agradeceu, desligando o telefone, em seguida.

Ansiosa para brincar Isabela correu de volta para o quarto e aguardou pela amiguinha. Não demorou muito e a campainha tocou. A empregada abriu a porta e pediu para que Bianca e sua filha entrassem. Renata desceu as escadas e disse a menininha, de cabelos cacheados, que Isabela a aguardava em seu quarto. Imediatamente Geovana subiu desejando ver a casa de bonecas que sua amiga havia ganhado.

Bianca e Renata ficaram na sala, colocando a conversa em dia, enquanto as meninas se divertiam no quarto.

– Olha a roupinha dessa aqui! – exclamou Geovanna, observando as vestes modernas daquela bonequinha.

– E essa aqui! – parece até as roupas que vovó costuma usar! – disse Isabela, mostrando uma que usava vestidinho no modelo dos anos 60.

– Elas parecem ser de verdade, não acha?

– Parecem mesmo! – respondeu Isabela observando os traços perfeitos que as bonecas possuíam. – Eu quero ser essa! – disse ela em seguida escolhendo aquela que considerou ser a mais bonita.       

– E eu vou ser essa! – disse Geovana, por sua vez, apanhando outra.

As duas meninas ficaram a brincar, por cerca de duas horas, até que Bianca, lá de baixo, chamou sua filha para ir embora. Geovana pediu que ficassem um pouco mais, contudo, seu pedido foi negado, pois já estava muito tarde. Sem alternativa a garotinha então se despediu da amiga e prometendo voltar no dia seguinte, partiu ao lado da mãe. Renata então mandou que Isabela se preparasse para dormir. Em poucos minutos a menina já estava, vestida com seu pijama listrado e deitada sobre a cama, esperando o beijo de boa noite de sua mãe.

Renata entrou no quarto, sem bater, cobriu a filha com um lindo cobertor de estrelinhas e em seguida a beijou, carinhosamente, sobre a fronte.

– Boa noite, filhota!

– Boa noite, mamãe!

Deixando a porta entreaberta para que a luz do corredor confortasse a menina que ainda não estava acostumada a dormir no escuro, Renata saiu, indo para seu quarto onde desabou, pesadamente, sobre a cama e dormiu como uma pedra. O mesmo não aconteceu com Isabela que custou a dormir. Envolvida pela penumbra de seu quarto ela admirava o novo brinquedo enquanto suas pálpebras iam ficando cada vez mais pesadas. Quando finalmente já estava quase dormindo ela viu uma das luzes da casa de boneca se acender e, imediatamente, a menina se sentou sobre a cama esfregando os olhos. “Como isso é possível?!” pensou ela desacreditada do que via.

Saiu da cama e, pé ante pé, foi se aproximando da pequena casa que tinha uma pálida luz saindo da janela da sala. Assim que chegou perto o suficiente, tomou um susto, pois todas as bonecas que ela, cuidadosamente, tinha colocado nos quartos agora se encontravam, na sala, reunidas ao redor de uma mesinha. No exato instante em que viu essa cena, Isabela foi bombardeada com o som de inúmeras vozes de meninas pedindo por socorro e, apavorada, protegeu os ouvidos com as mãos. Dominada pelo medo, correu em direção a porta, entreaberta, para chamar por sua mãe, no entanto, a porta se fechou, bruscamente, antes que ela pudesse sair. Gritando Isabela pediu por socorro, mas, misteriosamente, sua voz parecia não sair daquele cômodo. Em meio ao desespero ela teve a viva impressão de que a luz da casa de bonecas ficava cada vez mais forte. Uma claridade intensa ofuscou seus olhos e, após isso, os gritos cessaram.

No dia seguinte, ao som de seu fiel despertador, Renata acordou e, como fazia todos os dias, foi até o quarto de sua filha chamá-la para se preparar para a escola. Como não a encontrou, percorreu todos os demais cômodos da casa. No primeiro andar, acordou a empregada perguntando pela filha, mas a pobre mulher não sabia de nada.


 Completamente nervosa, a mãe da menina apanhou o telefone e ligou para a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente. Como eu havia dito, anteriormente, Renata cumpriu todos os procedimentos necessários para tentar encontrar a filha que havia desaparecido, sem deixar rastros, mas, até hoje, Isabela continua fazendo parte do percentual de jovens desaparecidos do Brasil. Ninguém jamais atentou para a nova bonequinha, de pijama listrado, no interior da casa de bonecas.  


Leia Mais...

Seguidores: