A dama do lago


Por Thiago Tavares

Correndo feito um louco, Eduardo tentava se afastar do lago de onde podia ouvir os gritos, desesperados, de seu amigo, sendo arrastado pela assombração. Durante a corrida, vez ou outra, escorregava, caindo sobre a lama fofa, mas, logo em seguida, tornava a se levantar e, sem olhar para trás, disparava a correr novamente. Com passadas largas, tentava alcançar à ponte de acesso a entrada da cidadezinha onde morava. Era lá que haviam deixado o carro estacionado. Seu meio de escapar daquela coisa.

Quando, finalmente, atingiu a ponte já não ouvia mais os gritos de Daniel e, apressadamente, abriu a porta do Santana, dando Graças a Deus por seu amigo haver deixado a chave na ignição. Deu a partida e pisou no acelerador deixando para trás aquele lago maldito onde Daniel nunca deveria ter parado. Com o medo que estava sentindo, nem percebeu que dirigia na mão errada e quase bateu contra uma caminhonete que vinha na direção contrária. Foi preciso uma manobra brusca para desviar e, por pouco, o carro não capotou. Com os olhos arregalados, Eduardo olhou, pelo retrovisor, para ver o veículo que, por um triz, não colidira e empalideceu de medo. Sentada no banco traseiro, estava à mulher pútrida que, vestida num traje esfarrapado, o observava com um sorriso maligno.

Não houve tempo para qualquer reação. As mãos daquela criatura, em decomposição, agarraram seu pescoço e, dotada de uma força descomunal, começou a enforcá-lo. Eduardo já sentia o ar faltar em seus pulmões quando acordou, em sua cama, assustado e com o corpo ensopado em suor. 

– Não aguento mais isso! – exclamou ele, ascendendo a luz do abajur e levantando-se da cama para apanhar o maço de cigarros que havia deixado no bolso da calça que largara pelo chão. Precisava fumar.  

Com um cigarro pendurado na boca e vestindo somente uma cueca Boxer, amarelada, que, certamente, já havia sido branca, Eduardo foi até o criado mudo e, com as mãos tremulas, pegou seu isqueiro Zippo, acendeu o fumo e após, uma boa tragada, conseguiu tranquilizar um pouco. Olhou no relógio que marcava 3 da manhã e praguejou Daniel, pelo medonho pesadelo que até hoje o atormentava. Já estava em seu segundo cigarro quando olhou, de relance, para o espelho, embutido no guarda-roupa, e viu marcas, estranhas, em seu pescoço. Chegou mais perto e verificou serem marcas de estrangulamento. Com o coração descompassado Eduardo então deixou o quarto em direção a sala onde apanhou, de seu mini-bar, uma garrafa de Natu Nobilis e iniciou a tomá-la no gargalo. Seus pesadelos ficavam cada vez mais reais e isso era, extremamente, aterrador.   

Com a garrafa em mãos, Eduardo foi até o sofá, apanhou o controle remoto e ligou a TV, passando os canais sem o menor interesse pelas programações. Estava apenas preocupado em manter-se alerta. Não pretendia dormir novamente. As horas se passavam, lentamente, e a garrafa de uísque que, até então, nunca havia sido aberta, agora já estava pela metade. “Já faz tanto tempo!” pensava enquanto continuava mudando os canais.

– Isso tudo é culpa sua, Daniel! – murmurou com a voz típica de um homem embriagado. – Não precisava ter parado o carro lá, mas você parou! – Por que foi tão estúpido?! – continuou como se conversasse com o velho amigo que já havia morrido há anos. – Espero que esteja no inferno, seu desgraçado! Você roubou minha paz! – vociferou ele, arremessando contra a parede, a garrafa já quase vazia.

Dominado pela raiva, fumou mais um cigarro, depois outro e um terceiro que só então conseguiu fazê-lo voltar à calma. Ao longo dos anos o fumo havia se tornado seu calmante e, boa parte, de seu dinheiro ia embora com maços e mais maços que necessitava comprar para se tranquilizar. Seus nervos estavam sempre à flor da pele, pois, diferentemente, da maioria das outras pessoas, Eduardo não conseguia dormir em paz. Suas noites de sono eram sempre interrompidas pelo mesmo pesadelo. Fato que o transformou num sujeito mal-humorado que, pouco a pouco, viu todas as pessoas a sua volta se afastarem. Estava sozinho e envolvido por tormentos. Seu desespero e cansaço se converteram em lágrimas e o homem, já desacreditado de se ver livre daquele sofrimento, iniciou a chorar.

Após muito haver chorado, Eduardo, sentindo as pálpebras pesando de sono, enxugou os olhos e viu que o relógio, sobre a estante, já marcava 5:45 da manhã. Faltava pouco mais de uma hora para ter de começar a se aprontar para o trabalho. Estava um caco e sem ânimo algum. Já não era mais capaz de suportar aquela guerra contra seus medos e decidiu se render. Levantando do sofá, ele foi até o rack e abriu uma pequena gaveta de onde retirou o recorte de uma manchete de jornal que vinha guardando consigo.  

– Quer me pegar sua miserável? – indagou olhando para aquele pedaço de papel velho. – Pois então venha! Eu não vou mais fugir de você. – concluiu voltando para o sofá, onde se deitou. Os olhos começavam a se fechar quando resolveu fazer uma última coisa.

De todas as pessoas que haviam se afastado de sua vida, seu filho era o que mais lhe fazia falta. Eduardo sentiu que precisava se desculpar e assim ele fez. Apanhou o telefone, sem fio, e discou o número que ainda se lembrava de cor. Era 5:50h quando Pedro Henrique acordou com o telefone tocando.

– Alô! – disse ele ainda zonzo de sono.

– Pedro!

Um breve silêncio se fez.

– Pai?!

– Desculpe por tudo, meu filho! Não fui um bom pai e também não fui bom em mais nada... sou apenas um homem cansado da maldição que carrega! Ela me viu e não importa o quanto eu fuja, nunca vai desistir de me perseguir! – Perdoe-me filho... perdoe-me...

– Pai! O que houve?! – Do que você está falando? – perguntou Pedro, levantando da cama, preocupado, com o tom de voz, choroso, do pai com quem não falava há anos. Todavia não houve resposta. Eduardo Já havia desligado.

Percebendo não haver mais ninguém do outro lado da linha, Pedro largou o telefone, vestiu uma camisa amarrotada, colocou uma bermuda qualquer e, apanhando as chaves do carro, saiu de casa. Enquanto isso, distante dali, Eduardo, permitindo que seus olhos se fechassem, deixava-se vencer pelo sono. Dali em diante, foi questão de tempo para seu tormento recomeçar.

Em poucos instantes estava revivendo a cena que ocorrera em 1988, no Maranhão, quando ele voltava de uma festa, no meio da madrugada, de carona com Daniel que resolveu parar o carro, para ajudar uma mulher que vira vagando com um vestido branco esfarrapado e manchado de sangue. Em seu repetitivo pesadelo, Eduardo ouvia os gritos de seu amigo sendo puxado para o interior do lago pela assombração que ele havia acreditado ser uma mulher precisando de ajuda. Olhou para a estrada e viu o Santana esperando por ele para fugir dali, mas, dessa vez, Eduardo não arredou o pé de onde estava. Ao invés de fugir, ficou ali, parado, vendo o responsável por todo o sofrimento que ele passará sendo levado para as profundezas do lago. Jamais havia perdoado Daniel por haver parado o carro naquela fatídica noite de outubro e não escondeu sua satisfação ao assistir a morte daquele desgraçado. Não demorou muito e a sinistra mulher, vestida de branco, saiu novamente do lago e, numa velocidade sobrenatural, anulou a distância que havia entre ela e Eduardo que, em nenhum momento, pensou em escapar. A mulher de pele extremamente pálida e fria o agarrou e, sem encontrar resistência alguma, arrastou, para o fundo do lago, aquele homem que já estava farto de viver atormentado.

Pouco mais de uma hora depois, Pedro freou, bruscamente, em frente a casa onde crescera, saiu do carro e, por diversas vezes, tocou a campainha. Como seu pai não atendia, o rapaz, preocupado, arrombou a porta e, apressadamente, ingressou pela sala, que tinha uma mancha de uísque numa das paredes e estilhaços de vidro de uma garrafa quebrada pelo chão. Eduardo, inerte, jazia sobre o sofá e após não obter êxito em acordá-lo, Pedro pegou o telefone e discou 192. 

Uma ambulância já havia sido enviada ao local quando ele identificou um pequeno papel sobre o chão. Pedro o pegou e viu se tratar de uma manchete antiga sobre o caso de uma mulher que fora estuprada, assassinada e seu corpo jogado num lago. A matéria informava ainda que o assassino nunca fora pego e que o caso gerou uma lenda, no Maranhão, de uma assombração que vagava nas imediações do lago, onde o corpo da moça foi encontrado, matando indivíduos do sexo masculino. No título da manchete lia-se: A dama do lago.

Pedro Henrique terminou de ler aquele recorte, amarelado, quando viu o socorro chegar. O rapaz ainda tinha esperanças de seu pai estar com vida, no entanto, Eduardo já estava morto. O óbito foi declarado ali mesmo no local. O mais intrigante foi que nenhum legista conseguiu explicar ao certo porque o corpo que fora encontrado morto, na sala de casa, tinha os pulmões repletos d'água, dando indicio de morte por afogamento.


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