O Ilustre Convidado

Ele recebeu o convite há mais de três meses e de início recusou. Conduzir Rose ao altar? Será? Pensou em arrumar uma desculpa qualquer. Achou que iria se expor demais. Após pensar e repensar decidiu aceitar o convite para aquela cerimônia. Já conhecia este tipo de celebração a mais de dois séculos. A filha única de sua vizinha iria casar. Órfã de pai, precisava de um acompanhante para conduzi-la ao altar. Melancólico, lembrou-se dos festejos da irmã, ainda no tempo em que os carros eram puxados por cavalos. Há tempos não saía de casa, a não ser de vez em quando, à noite para caçar. A festa era tarde então achou por bem cumprir as formalidades na igreja e retornar a segurança de seus aposentos.
Na data marcada adentrou de braço dado com Rose à nave central do templo numa elegância ímpar, atraindo a atenção dos presentes. Logo após entregar a nubente ao seu ansioso par começou a passar mal pela proximidade do altar e do enorme crucifixo acima de sua cabeça. Retirou-se cambaleante de imediato e, chegando à saída, a mãe da noiva veio em seu encalço demonstrando total preocupação. Inventou uma desculpa qualquer e ouviu a súplica desta implorando por sua presença, pelo menos na festa em local próximo dali. Andou a esmo por vários quarteirões e próximo da meia-noite decidiu-se por fim atender ao pedido de sua vizinha.
Penetrou ao espaço dirigindo-se à mesa indicada com seu nome, sentou-se e observou todas aquelas criaturas inferiores alegres e cheias de vida. Experimentou a inveja e por um segundo sentiu remorso, sendo responsável por um número interminável de mortes em sua longa existência. Prometeu a si mesmo que iria se comportar da maneira mais digna possível.
Começa a valsa dos noivos e então se ouve uma grande explosão. A energia cai e sobrevém a escuridão. O velho gerador do clube não suportou o moderno equipamento de luz e som instalado às pressas para a ocasião. Faz-se o caos. Em seguida um garçom cego tropeça com sua bandeja apinhada de garrafas e copos. Dezenas de convidados buscam a saída. Muitos caem e se machucam nos cacos lançados ao chão. Ele observa tudo com sua visão acentuada. O ar fica impregnado com o doce aroma de sangue fresco. Seu olfato aguçado faz seu corpo enlouquecer e ele já sente seus caninos rasgarem as gengivas. Logo cai em tentação aproveitando as trevas e a grande fartura disponível de alimento da melhor qualidade.

1 Comentário:

Kid Flash

HAUHUAHUAHUAH... INSANOOOOOOOOOOOOOO Bom demais aí... Eu sou muito apreciador destes tipos de contos. Embora eu não saíba escrever tão rebuscadamente como aqui foi escrito, eu gosto muido destas histórias sombrias e curtas. É o tipo de coisa que eu venho tentando fazer no meu blog. rsrs... Mais de uma forma mais onírica. Complexo explicar. rsrs..

Beijos do Kid Flash.

1 de janeiro de 2012 07:35  

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