O Velório

– Bill! Quantas vezes vou ter que dizer para não tocar nisso! – Ralhei enquanto arrumava as malas para partir. – Vamos, pegue as suas coisas. Temos que ir.

Bill ia colocar o vaso de cristal de volta na mesa quando o objeto escapou de suas mãos. Mil cacos se espalharam pelo chão e o choro estridente da criança ecoou no ambiente.

– Tudo bem. Agora já foi. – O tranqüilizei com a voz serena. – Vamos filho, temos que ir agora.

– Para onde vamos mamãe? – Ele falou ainda soluçando. – Cadê o papai?

Como poderia explicar a uma criança de três anos o súbito sumiço de seu pai? Engoli em seco e forcei um sorriso torto. Calar-me foi a única opção que restou. Minha cabeça estava a mil. Precisava sumir dali o mais rápido possível, fugir de tudo que me lembrava ele. E foi assim que com poucos pertences eu cheguei com o pequeno Bill a Conceição dos Ouros, um município ao sul de Minas Gerais.

Tinha menos de dez anos quando pisei aqui pela última vez. Tudo estava diferente. Fui andando e perguntando onde era a casa do Sr. Jolino. Não foi difícil encontrar. Cidades pequenas têm esta vantagem. Eu lembrava vagamente que os meus parentes moravam perto da rodoviária e em pouco tempo lá estava eu, sendo recepcionada pela gentil esposa do grande amigo do meu avô.

Neuza nos deu café, broas de milho maravilhosas e conversamos por algum tempo. A última vez que nos vimos foi ano passado, quando eles foram a São Paulo para o enterro da minha bisavó. Infelizmente são somente nessas ocasiões que a família costuma se reunir.

Expliquei que tinha vindo para passar um tempo e pedi que me ajudassem a encontrar uma casa para alugar.

– E o seu marido? – Ela especulou.

– Ele foi passar uns meses na Alemanha a trabalho – eu inventei – e resolvi passear um pouco, mudar de ares, rever os parentes, sabe como é.

– Ah, mas então não precisa alugar uma casa. Podem ficar aqui. – Neuza ofereceu. – A casa é grande, tem muitos quartos. Não vejo a necessidade de você gastar dinheiro com aluguel.

Puxa, como ela é gentil, pensei. Eu tinha absoluta certeza que ela ofereceria e se não oferecesse, os outros parentes o faria. O povo desta cidade é muito receptivo. Todos eles, sem exceção. Mas diante dos motivos pelos quais eu vim para cá, tive que recusar. Queria um canto só para mim e para o meu filho. Não sabia quanto tempo ia ficar. Se me sentisse segura o bastante, os meses se tornariam anos e eu não quis dar trabalho para ninguém.

Conceição dos Ouros tem pouco mais de dez mil habitantes. Como historiadora, hoje posso ver a riqueza arquitetônica nos casarões antigos. Detalhes que quando criança não me faziam diferença. As memórias que tenho daqui são muito agradáveis. Comida feita no fogão a lenha pela saudosa vó Bastiana, caça aos pássaros e pombos com as primas Jerusa e Daiana, festas juninas na escola, lanches saborosos no Skinão e a badalada diversão noturna com as primas Alessandra, Genoveva e os outros. Nunca vou me esquecer de uma noite divertidíssima que cantávamos com todo o fôlego a música Astronauta de Mármore sob as luzes coloridas do salão. Puxa, não via a hora de revê-los. Vinte e cinco anos é o tempo que nos distanciou. E por este motivo decidi vir para cá, onde nenhum familiar do meu marido suspeitaria que eu estivesse, pois jamais mencionei que tinha laços por aqui. Duvido que ele próprio também me ache. Se falei mais de duas vezes sobre este lugar durante os anos de casamento foi muito.

Em três dias eu já estava entrando em minha nova casa. Não era bem o que eu queria, mas ia servir. Tinha a intenção de me alojar mais para o centro, mas o que pude encontrar foi um imóvel simples, num local chamado Covoca. Uma área rural com poucas casas e muito verde.

Construída com tijolos artesanais minha nova moradia tinha portas e janelas de madeira sem fechadura, que eram trancadas somente pelo lado de dentro com o que chamam de tramela. Tramela é uma espécie de tranca pregada no batente, moldada em madeira, com um furo no centro. Pode ser girada, mantendo a porta ou janela travada quando necessário.

Havia dois quartos espaçosos, uma sala pequena e uma cozinha, cujo fogão a lenha de tijolos repousava no canto direito. O banheiro era do lado de fora da casa, o que me entristeceu um pouco, mas tudo era questão de se adaptar. Sorte que alguns poucos móveis estavam lá e pude aproveitá-los. Somente um sofá velho na sala, uma cama em cada quarto e um guarda roupas pequeno caindo aos pedaços, mas que eram bem vindos para quem não tinha nada.

No teto não havia forro. As telhas e caibros expostos davam um ar desaconchegante. Não bastasse o vento frio da noite, o grande número de pernilongos que se banqueteava com o nosso sangue paulistano também incomodava muito.

Eu já havia me esquecido desses desagradáveis detalhes. Quando vinha com meu avô para uma casa parecida com esta ainda na minha infância, eu ficava eufórica demais brincando com os porcos no chiqueiro, tirando leite das vacas, comendo maçã verde embaixo das árvores e correndo pra lá e pra cá com os meus primos. Atividades que me deixavam exausta demais para perceber que pernilongos existiam.

Ficava encantada e com medo ao ouvir as histórias de lobisomem que a Carminha me contava. Eu acreditava nelas, pois havia marcas de unhas incrustadas nas portas e janelas e eu ficava imaginando o que faria se um lobisomem aparecesse. Mais tarde descobri que os arranhados eram dos cachorros e que tudo não passava de lendas.

Eu ri sozinha com essas lembranças, mas apagar o que aconteceu comigo em São Paulo parecia impossível. Deixei para trás meu apartamento confortável, meu carro, meu trabalho e meus amigos para amenizar o sofrimento e começar vida nova longe de tudo e de todos.

O que ele fez não tem perdão. Desgraçado! Devia tê-lo matado, isso sim! Mas tal atitude teria me levado a cadeia e eu ficaria longe do meu filho. Ainda bem que fui suficientemente racional e consegui me controlar.

Minhas economias poderiam nos manter por algum tempo, mas eu já sabia que logo precisaria de trabalho. A licenciatura seria útil agora, ainda bem. Estudar nunca é em vão.

Eu nunca pensei em dar aulas, mas agora viria a calhar.

Precisava resolver o que fazer com o pequeno Bill. Ele já estava entediado sem ninguém para brincar, sem televisão e sem os seus brinquedos. Praguejei não ter meu carro agora. Se tivesse poderia levá-lo para uma escolinha. O problema é que o veículo tem rastreador, por isso tive que deixá-lo para trás.

Pela primeira vez desde que cheguei, fui carregar meu celular. Quando saí de casa já tinha acabado a bateria e por mais de uma semana eu fiquei incomunicável. Precisava conversar com a minha mãe. Ela não deveria estar tão desesperada pois tinha viajado para a casa da praia e talvez nem tivesse percebido que eu fugi com o Bill. Mesmo assim eu resolvi ligar.

– Alô, mãe?

– Carol? Carol pelo amor de Deus, onde você se meteu?

– Mãe, eu to em Minas, mas não conta pro Bernardo. Tivemos uma briga séria.

– Meu Deus do céu, Carol! Você não faz idéia do que aconteceu!

– O que foi mãe?

– O Bernardo... O que houve entre vocês?

– Mãe, eu não quero falar sobre isso. Quero esquecer que um dia eu o conheci. Estou com muita raiva, eu...

– Escuta filha...

– Não, mãe, não adianta. Só liguei pra dizer que estamos bem.

– Mas o Bernardo morreu, Carol. Morreu.

– O que?

– Foi encontrado morto há dois dias. Foi assassinado dentro do apartamento. Você precisa voltar já!

Emudeci. A paz que eu estava buscando foi encoberta por uma fria mortalha e mesmo depois de tudo o que Bernardo fez para me magoar, eu lamentei profundamente aquela notícia. Apesar de ter sido traída e humilhada pelo homem a quem dediquei a minha vida eu estava de repente apavorada com o fato de ele ter morrido de maneira tão abrupta. Uma infinidade de pensamentos me invadiu e as lágrimas começaram a descer quando novamente eu recobrei a consciência sufocada pela avalanche de sentimentos pesarosos e ouvi a minha mãe chamar meu nome do outro lado da linha.

– Carol?

– Oi mãe, eu estou aqui, só que não consigo acreditar...

– Você tem que voltar, filha. A polícia está te apontando como principal suspeita por causa do seu sumiço.

– Eu estou voltando, mãe. Vou resolver isso.

Mal desliguei e ouvi o grito agudo de Bill, que brincava no quintal aparentemente sem perigos quando eu me afastei.

Atravessei a porta feito louca e encontrei meu filho caído debaixo de uma árvore se contorcendo de dor. Meu coração quase saiu pela boca quando vi a perna esquerda dobrada em posição oposta na altura do joelho e comecei a gritar desesperadamente por socorro. Não conseguia raciocinar direito e vendo o seu sofrimento eu me apavorei como nunca antes na vida.

Voltei aos tropeços para dentro de casa e saí com o celular na mão. Enquanto eu acomodava a cabeça de Bill no meu colo discava o telefone do Sr. Jolino. Se precisar de alguma coisa, é só ligar. Ele tinha me falado.

A ambulância demorou mais de quarenta minutos prolongando o meu desespero. Eu conversava com Bill tentando acalmá-lo, mas no fundo quem não conseguia se acalmar era eu. Ele já não chorava mais. Gemia e tremia e eu estava sendo engolida por um monstro impiedoso que me estraçalhava o coração bem devagar.

Os instantes de angústia se intensificaram no hospital, no momento em que a perna do meu filho teve que ser colocada no lugar. Jesus! Eu não desejo que nenhuma mãe no mundo tenha que testemunhar tal cena. Dói. Dói muito. E é uma dor crucial, insuportável e desumana.

Eu chorava copiosamente ao ouvir seus gritos e súplicas. A taquicardia se manifestou violentamente. Senti meus músculos contraírem e vi tudo rodar. Uma sombra escura foi escaneando meu cérebro de cima para baixo até que eu fosse totalmente mergulhada na mais profunda treva.

·

Pressupus já ter passado algum tempo desde o acidente quando acordei. Estávamos na casa do Sr. Jolino. Eu estava na cama ao lado de Bill, que tinha os olhos grudados na TV e a perna engessada do tornozelo até a virilha.

Passei a mão no seu rostinho, mas ele nem olhou para mim. Deve ter ficado com raiva e não sem motivo. Como pude descuidar dele daquela maneira?

– Filho você está bem? – Eu perguntei. – Como se sente?

Vi as lágrimas brotarem dos seus olhos e nenhuma palavra ele disse. Eu o abracei e beijei a sua testa. Me perdoe, meu anjinho. Foi o que consegui dizer.

Neuza entrou no quarto com uma bandeja nas mãos e o olhar triste. Forçou um sorriso, pude perceber.

– Vamos almoçar? – Ela perguntou.

– Obrigada Neuza, estou sem fome.

– Bom, deixa eu alimentar esse menino lindo então. – Ela disse e foi se sentando numa cadeira próxima a cama. – Olha, Bill, tem arroz, feijão, batata, frango, couve, salada... tudo fui eu que fiz pra você.

– Hm que delícia! – Eu falei tentando motivá-lo a comer. Bill continuava com o olhar fixo na TV. Neuza foi enfiando as colheradas na sua boca enquanto ele mastigava com pouca vontade.

– Deixa que eu dou pra ele, Neuza – Eu insisti, mas ela puxou o prato e sorriu.

O Sr. Jolino entrou no quarto e foi dizendo – Tô indo lá então.

– Vai. Já já a mãe dela chega e aí damos um jeito de ir também.

– Certo. A cadeira de rodas está no corredor. – Ele avisou. – Tchau Bill! Come tudo pra sarar logo.

Onde será que nós iríamos? Bom, não sei, mas não quis perguntar. Neuza parecia tão entretida dando a comida para o Bill que não quis incomodá-la com esta pergunta. Acomodei-me no travesseiro e fechei os olhos por alguns instantes.

Um arrepio subiu dos pés a cabeça quando ouvi aquela voz familiar falar meu nome. Carol? Ai Jesus! Sobressaltei. Jurava ter ouvido Bernardo me chamar, mas graças ao bom Deus não o vi em lugar algum. Fora uma impressão, só isso.

Pensei então naquele assunto que estive evitando. Tinha que voltar a São Paulo e me apresentar para a polícia. Quem quer que tenha matado o Bernardo com certeza não fui eu. Meu peito estava sufocado. Quem teria feito isso com ele? Minha alma estava ferida, mas mesmo assim eu nunca desejei que ele morresse. Talvez tenha desejado num momento ou outro de raiva, mas no fundo não de verdade como acabou acontecendo.

O que ele estava fazendo no nosso apartamento, se já havia juntado as suas coisas e ido morar com aquela piranha sem vergonha? Deve ter esquecido alguma coisa lá e quando voltou para buscar algum ladrão o seguiu e o matou lá dentro. Será? Preciso descobrir direito o que aconteceu, mas de qualquer forma fico aliviada por ter saído antes. Não quero nem pensar se eu e Bill estivéssemos lá na hora. Eu não suporto nem imaginar. Deus sabe o que faz e foi um livramento e tanto para nós dois, mesmo que para isso o Bernardo tivesse que pagar o pato.

Bill já havia terminado a refeição e Neuza continuava lá no quarto. Parecia dispersa, com o olhar vago, mesmo assim nos fazia companhia mesmo sem termos muito o que dizer. Ela se levantou com o tocar da campainha. Eu já volto. Falou e foi saindo.

Instantes depois vi minha mãe entrar no quarto.

– Mãe! – Eu exclamei e dei um pulo. Fui de encontro a ela, mas ela me olhou com raiva e foi logo se agarrando a Bill. Ela começou a chorar de uma forma que eu jamais vira antes.

– Mãe, ele vai ficar bem. – Eu assegurei. – Ela estava tão abalada com o estado dele que nem me respondeu. Devia estar com muita raiva por eu tê-lo descuidado. Senti-me uma péssima mãe. Ela jamais deixou que eu me machucasse desse jeito quando criança e provavelmente estava mentalizando uma série de impropérios para jogar em mim assim que fosse oportuno.

– Vamos lá para a igreja, então? – Neuza chamou depois que ela se acalmou um pouco. A voz de Neuza era empastada, pesarosa e eu comecei a me sentir mal, como se tivesse de repente me tornado um fardo para ela.

Minha mãe concordou com a cabeça e Neuza veio trazendo a cadeira de rodas para colocarem o Bill.

– Vocês não querem que eu fique com ele? – Sugeri. Se elas queriam ir a igreja, eu não via a necessidade de levá-lo.

– Ele tem que ir. – Minha mãe falou olhando para Neuza e em seguida para o Bill. – A vovó não gostaria de te tirar dessa caminha boa, mas precisa ir conosco, tá bom?

– Tá bom, vovó. – Ele respondeu a abraçando novamente.

Acho que entendi, pensei. Queriam levar Bill até a igreja para que orassem por ele, ou coisa assim. Era comum fazerem isso com os enfermos. Vamos á igreja então. Todos nós.

Minha surpresa foi enorme quando vi um caixão no meio do salão. Alguns poucos lugares eram preenchidos por parentes que eu ainda não havia tido tempo de visitar. Que sina! O velório de alguém é sempre onde encontramos os familiares.

– Quem morreu? – Eu cutuquei a Neuza, que entrava ao meu lado, mas ela chorava tanto que nem conseguiu me responder.

Jolino já estava lá e também as minhas primas e primos, tias e tios e um monte de gente que apesar de vasculhar a minha memória em busca de seus rostos, não pude me lembrar deles, ou talvez simplesmente não os conhecesse.

Carol? Estremeci. A voz de Bernardo novamente entrou nos meus ouvidos como um acorde desafinado que me fez estacar. Sentei-me no fundo da igreja e fiquei lá quietinha por alguns instantes enquanto minha mãe cumprimentava os parentes que há muito tempo ela não via.

Ainda bem que ninguém tinha me visto ainda. Precisava de alguns instantes para me acalmar. Quem estava no caixão? Por que Neuza não falou nada do velório? Carol? A voz novamente me assaltou. Tremi mais uma vez. Minha imaginação estava ultrapassando os limites. Respirei fundo e ergui meus olhos.

A princípio não consegui acreditar, mas não podia negar o que estava vendo. Todos olhavam para frente. Todos menos um.

Bernardo estava sentado ali. Tinha o corpo ligeiramente virado para trás e me fitava silenciosamente com a imobilidade sobrenatural que parecia trazer consigo. Entretanto parecia normal. Vivo, quero dizer, mas ainda assim diferenciado das outras pessoas.

Pensei ter gritado, mas foi somente uma impressão, pois ninguém voltou os olhos para mim. Eu não teria feito isso. Seria falta de respeito com o falecido fosse ele quem fosse.

Levantei-me apavorada e saí correndo porta afora só para ser barrada por Bernardo que do nada apareceu na minha frente.

Aí eu gritei de verdade. Gritei com todas as minhas forças, a plenos pulmões enquanto tentava em vão me esquivar daqueles braços que me apertavam e daquela voz que me pedia calma.

Depois de alguns momentos percebi o quão estúpida eu estava sendo. Bernardo não tinha morrido. Ele estava ali me abraçando, afagando os meus cabelos enquanto eu recobrava a minha calma perdida e arfava o peito que chegava a doer.

Carol? Eu arregalei os olhos e o encarei. Ordinário! Foi a primeira coisa que me veio a mente. Por que minha mãe mentiu para mim? Por que disse que ele tinha morrido? Eu teria sonhado aquilo? Deus, a traição desse cafajeste mexeu de verdade com a minha sanidade. Preciso de ajuda médica imediatamente, pensei.

O rosto de Bernardo mudou ligeiramente. Sofreu um enrubescimento e os olhos se apertaram. Ficou claro para mim que ele estava vivo e de alguma forma conseguiu me encontrar. Mas se a conversa que eu tive com a minha mãe não aconteceu realmente, então como foi que ele me achou?

– Carol?

– Mas que droga! Dá pra parar?

– Como pôde fazer isso? – Ele me perguntou.

– Eu é que te pergunto. – esbravejei. – Você pega as suas coisas, vai embora de casa com uma qualquer e quer questionar os meus motivos por ter vindo para cá?

– Não estou falando disso. Eu errei. Não fui honesto com você e já comecei a pagar por isso, pode acreditar. Mil anos não seriam suficientes para me desculpar com você e com o Bill. - Eu cruzei os braços e bufei. Ele continuou falando – Mas você não podia ter feito isso.

Eu o olhei com toda a raiva que havia em mim e despejei o que estava entalado. – Ah, quer dizer que depois de tudo o que você fez, eu não podia simplesmente desaparecer levando o Bill comigo, né? Afinal de contas você se importa muito conosco! – Ironizei.

– o que você não quer entender é que eu fui vítima...

– Vítima? Você foi vítima? Ah faça-me o favor! – Saí de perto dele pisando firme de tanto ódio e então olhei para trás e falei mais. – Bernardo, nunca mais fale comigo novamente, ouviu bem?

– Está certo. – Ele disse com a voz triste. – Te desejo sorte.

– E eu quero mais é que você se dane! – Gritei sem olhar para trás enquanto voltava para a igreja.

Antes de cumprimentar os parentes, passei feito um raio pelo corredor que se formava e fui em direção a minha mãe que contemplava o defunto com uma expressão de dor. Sinto muitíssimo, mas ela teria que me explicar agora mesmo o porquê de ter inventado toda aquela história.

– Mãe? – Ela nem se quer olhou. Cheguei mais perto. – Mãe? – Eu repeti. Seus olhos estavam fixos no caixão e foi então que desviei o meu olhar.

Me afastei assustada e meus olhos se arregalaram. Bill chorava e chamava por mim. Por mais que eu tentasse alcançá-lo, tocá-lo uma força estranha me impedia.

E então eu me lembrei. Flashes dos momentos no hospital chispavam em minha cabeça perturbada.

Quando o médico colocou os ossos de Bill no lugar e eu ouvi os gritos do meu filho sem nada poder fazer, fui atacada por uma onda de insanidade. Não pude ver mais nada além da dor. A dor de ter sido traída, a dor de estar impotente quanto a ajudar o meu filhinho, a dor da morte de Bernardo, a dor de ter largado tudo em São Paulo, a dor de saber que era suspeita de um crime, enfim, eu fiquei fora de controle e cega por causa de um aglomerado de sensações horríveis que dilaceravam as minhas estruturas. Agarrei a tesoura que estava em cima de um balcão e fui para o corredor. Golpeei meu peito duas vezes. Senti meus músculos contraírem e vi tudo rodar. Uma sombra escura foi escaneando meu cérebro de cima para baixo até que eu fosse totalmente mergulhada na mais profunda treva.

O arrependimento não fazia a menor diferença agora. Desde que acordei ao lado de Bill na casa de Neuza eu já estava... morta? Sim. Estava.

Aquele velório era o meu. Todos estavam desconsolados principalmente a minha mãe e o pequeno Bill. Assim que o meu corpo foi sepultado naquela mesma tarde em Conceição dos Ouros, eu comecei a cumprir a minha pena. Nunca mais os vi novamente. Jamais encontrei o Bernardo de novo e talvez passe a eternidade na expiação. Longe de tudo e de todos.

1 Comentário:

Conde Vlad

HE... um final surpreendente. Enquanto não desvendava o mistério eu passei o tempo todo pensando que ela havia matado o Bernardo e o trauma disso a tivesse feito esquecer que ela era a assassina, quando na verdade a história toda era verdadeira, que ela não havia cometido o crime, que a mãe ligou e avisou do falecido.

Porque os bons morrem cedo???

Beijos do Conde.

13 de novembro de 2011 07:58  

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