
Parte 1 (Seja bem vindo ao pesadelo da realidade)
O prefeito da cidade já estava ficando louco com aquela história toda. Primeiro vem um caso de suicídio fora do normal: um adolescente joga-se do alto de um precipício por causa de um amor não correspondido; logo a seguir, a jovem, sentindo-se culpada, faz o mesmo, apesar das suspeitas apontarem como culpado um amigo dela. Depois, como se já não bastasse, várias pessoas de diversas idades fazem o mesmo. Ninguém sabe explicar o motivo de tantos suicídios no mesmo local, alguns dizem que a vontade já existia há algum tempo dentro dessas pessoas, só faltava um incentivo para tal loucura; outros preferem dizer que o precipício é amaldiçoado, um lugar maldito que deve ter seu acesso fechado. E era isso que incomodava o prefeito, as pessoas cobravam dele uma providência, pois o tempo passava e mais suicídios eram cometidos no mesmo local. A cada dia um caso diferente: um idoso cansado da vida, uma criança rejeitada, uma mulher em depressão, um religioso fanático se sacrificando para seu deus, um empresário mal sucedido, um louco, etc. O caso mais estranho foi o de um senhor que passava por ali apenas para conhecer o local tão afamado. Ele tentou se jogar do precipício, mas foi impedido por sua mulher, que o agarrou com força antes que ele avançasse em direção à morte. Quando perguntaram por que ele tentou fazer aquilo, ele disse que não sabia o porquê de ter tomado aquela decisão suicida. Apenas queria se jogar do precipício quando viu aquela paisagem, o mar batendo nas rochas lá embaixo, numa grande e impressionante altura. Disse ainda ser possuído por uma vontade avassaladora de se jogar ao ver que se encontrava naquela altura, e apenas isso! E o mais impressionante era que esse homem não tinha nenhum antecedente suicida, nem mesmo qualquer acontecimento em sua vida que o denunciasse por algum tipo de crise existencial. Tal fato só aumentava ainda mais a insatisfação das pessoas que moravam naquela cidade, e o prefeito não se mostrava interessado pelas superstições daquelas pessoas. Mas como os casos de suicídio eram cada vez mais numerosos, houve manifestações e protestos dificilmente de serem ignorados. O caso já estava ganhando as manchetes dos jornais.
O precipício ficava num lugar calmo e bonito, entre as serras da cidade. Para chegar lá era preciso subir uma grande montanha através de uma trilha que levava até o ponto mais alto da serra. Era um local ermo, bem afastado. Algumas pessoas diziam ter visto fantasmas passando por ali, principalmente os fantasmas dos suicidas. À noite ninguém se atrevia em ir até lá. Foi durante a noite que ocorreu um dos primeiros suicídios nesse local, e isso alimentava ainda mais o medo das pessoas supersticiosas da cidade.
Algumas semanas depois dos manifestos, no precipício, um grande aglomerado de pessoas parava para ver o maior feito do prefeito sendo realizado naquela cidade. Estava sendo construído um enorme muro no precipício, de grande altura, impossível de ser escalado, e de enorme largura, de uma ponta a outra do precipício, delimitado por grandes rochas. A construção intrigava as pessoas. E se não desse certo? Os suicidas poderiam muito bem pular de outro lugar! Mas se desse certo, o prefeito ganharia pontos com seu povo. As respostas viriam com o tempo, e as pessoas estavam ansiosas.
A construção não demorou muito a ficar pronta. Quando finalmente estava terminada, um rapaz que lá chegou admirou-se com o enorme muro. E em pânico gritou: “NÃÃÃO!” Os homens que trabalhavam na construção do muro levaram um susto com o rapaz. Um deles disse:
— Olha! Não é aquele cara que tentou se jogar daqui várias vezes, aquele do jornal, lembra?
Outro homem disse:
— Sim é ele! Eu lembro dele. Tava no jornal que ele fugiu do hospício. Olha ele aí! Aí maluco, se liga no “recado” que eu tenho pra você. (pegou um carvão e começou a escrever no muro): “SEJA BEM VINDO AO PESADELO DA REALIDADE”.
Todos começaram a rir, e o rapaz foi correndo embora, lamentando-se desesperadamente.
Os homens da obra se divertiam com a cena.
— Vai maluco! Demorou dois meses pra ficar pronto, pra nunca mais! Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
A construção deu certo. Nunca mais houve histórias de suicidas na cidade. Nenhum caso tinha sido registrado desde a construção do muro. A cidade normalizou-se novamente.
Enquanto isso, Luciano era analisado por um psicólogo.
— Luciano, você ainda acredita ter visto um anjo no precipício?
— Sim doutor, ele veio para levar os escolhidos.
— E que escolhidos são esses?
— São os incompreendidos. Eles irão para um mundo onde não serão mais torturados.
— Torturados? Quem os tortura?
— Vocês, todos vocês da cidade.
— E o anjo veio te buscar também?
— Sim! Ele veio me salvar... (Luciano olhava para o nada, imaginando o que tinha acabado de dizer).
O psicólogo deixou Luciano sozinho e foi conversar com seu pai.
— Senhor, sugiro deixar seu filho um tempo comigo, internado. Nas condições em que ele se encontra será preciso passar por um tratamento.
O pai de Luciano estava inconformado, mas concordava com o psicólogo. Ele já tinha perdido a conta de quantas vezes impediu seu filho de ir até o precipício tentar se matar. Mesmo o muro que havia sido construído não o tranqüilizava.
— Doutor... Eu não entendo como ele foi ficar assim. Era um jovem tão normal. De onde ele tirou essas idéias? Traga-o curado doutor! Curado!
— Acalme-se, senhor. Seu filho vai passar por um tratamento até melhorar.
O pai de Luciano deixou o psicólogo ir. Ficou na janela observando seu filho partir aos gritos, sendo arrastado por enfermeiros até a ambulância. E não teve coragem de continuar na janela olhando tal cena. Recolheu-se e sentou amargurado em seu sofá.
Luciano gritava inconformado:
— Eu não sou louco! Eu vi! Eu vi! Ele vai me salvar, o anjo vai me salvar! Vocês vão ver! Vocês vão ver!
Parte 2 (O Pessimista)
Luciano sentou e encostou-se à parede, aparentemente triste, não se conformava em estar preso naquele maldito hospício cheio de loucos. Uma garota, que aparentava ter mais ou menos a mesma idade (18 anos), foi sentar-se perto dele para se apresentar.
— Oi, meu nome é Catarina. Sou uma assassina. Você matou alguém?
Luciano mostrava-se entediado. A garota tinha os cabelos ruivos desgrenhados, era bonita, mas seu rosto parecia muito maltratado por olheiras.
Ele nem a olhou, mas respondeu:
— Não.
Catarina não se mostrava satisfeita:
— Qual é seu nome?
— Luciano.
— Por que você está aqui?
— Vi um anjo. – Olhou para Catarina, pensando provocar um riso ou deboche, mas ela permanecia olhando para ele com grande atenção. Então desviou o olhar, como quem estava perdendo tempo. Ora, ela era uma louca! – E você?
— Vi um demônio.
— Quê?!
— Um demônio! Sabe, meu padrasto sempre vinha em minha cama quando eu estava dormindo. Mas não era ele, era um demônio. Eu sei, eu vi!
— Não era não, era um tarado.
— Não, era um demônio mesmo! Eu vi os olhos vermelhos dele, e ele pegava fogo. É verdade!
— E o que ele fazia? – Perguntou Luciano, com o pouco de paciência que lhe restava.
— Pecava. Ele era o demônio do pecado. E o seu anjo, o que ele faz?
Não tinha nada para fazer mesmo. Luciano então resolveu conversar.
— Meu anjo veio para salvar os torturados como eu.
— Você acha que ele pode me salvar também?
Luciano pára pra pensar. Surpreende-se com a pergunta.
— Claro! Ele vem para salvar todos os torturados.
Os dois trocam sorrisos, como se tivessem chegado a uma conclusão. Luciano então volta sua atenção para um homem, aparentando ter uns trinta anos, jogado no chão, com as roupas rasgadas, e profundamente triste. E pergunta:
— Quem é ele?
— Aquele é o Afrânio. A esposa dele pediu o divórcio e ele culpa o mundo por isso. Você acha que seu anjo pode salvar ele também?
— Não sei. Vamos falar com ele!
E foram os dois engatinhando até Afrânio.
— Afrânio, esse é meu amigo Luciano. O anjo dele veio salvar a gente, você não quer ser salvo também?
— Ah, crianças ingênuas! Como podem acreditar numa bobagem dessas? É o mundo que precisa ser salvo, e não a gente!
Luciano então lhe pergunta:
— Por que a sua mulher quis se separar de você?
— Por causa do mundo! Sabe Luciano, foi o mundo que me separou dela, eu fui corrompido.
— Corrompido? – Luciano não entende.
— Sim meu amiguinho, corrompido. Eu era puro, tinha uma inocência igual à tua, mas o mundo me roubou isso. Minha mulher vivia me pedindo declarações de amor, palavras de alegria. Mas eu vivia dizendo a ela: “Amor, como posso lhe dizer coisas alegres e cheias de amor num mundo como esse?” Ela nunca me entendia.
Luciano continuava curioso.
— E o que você dizia?
— Ah, eu dizia apenas a verdade: “Minha coluna dói, estou cansado, estou desempregado, preciso de um banho, o remédio está acabando, etc.”.
— Acho que você não precisava dizer isso quando ela precisava de umas palavras de amor. - Disse Catarina.
— Mas o que você queria que eu dissesse num mundo tão soturno como esse?
Luciano interrompeu:
— Mas por que você nunca disse o que ela queria ouvir?
— Porque nós vivemos num grande e podre mundo sujo. Onde as pessoas são um monte de vermes, e o mundo é um lodaçal em que nos afundamos cada vez mais.
Então Luciano lhe diz:
— Meu anjo vem buscar as pessoas torturadas para viver com ele num mundo perfeito, onde não seremos mais torturados, pois lá os torturados são aqueles que nos torturam aqui.
— E onde fica esse mundo?
— No precipício.
— Já ouvi falar, mas acho que você não sabia que agora tem um muro lá.
— Isso não será capaz de impedir meu anjo. Ele é mais forte que mil muros. Você gostaria de vir com a gente?
Afrânio olha para os dois durante um tempo, e depois responde:
— Tudo bem garoto, não tenho nada a perder mesmo.
Catarina se entusiasma:
— Legal, agora somos um trio! Vamos falar com a Camila também, ela é muito legal!
— A Camila é uma drogada. – Protestou Afrânio.
— Tudo bem, quanto mais pessoas a serem salvas, melhor. – Disse Luciano.
Parte 3 (A festa das drogas)
Eles se aproximaram de Camila. Ela tinha os cabelos pintados de verde e falava sozinha. Catarina foi a primeira a falar com ela:
— Camila, temos uma novidade para você...
Camila interrompeu:
— Espere, espere! Tô tentando ouvir o que a formiga tá falando.
— Camila, formigas não falam. – Disse Catarina aborrecida.
— Claro que fala sua doida! Ela me deu altos conselhos. Me disse que a vida é uma merda e que devemos dar uma grande festa de arromba. Pois o mundo está aí para impedir que sejamos diferentes das regras impostas pelo sistema, e dando uma festa todos podem ser iguais. Ninguém se importa com nada quando esquece seus problemas e mergulha nos prazeres da vida. O resto são coisas muito grandes, é apenas o resto.
— A formiga disse tudo isso? – Perguntou Afrânio.
— Claro que disse. Você por acaso tá me vendo com drogas?
Luciano diz:
— Existe um mundo onde você pode ser imortal. Nós vamos para esse mundo, você quer vir com a gente?
— Já é! Pô garoto, por que você não me avisou isso antes? Vamos comemorar! Mas que droga, como eu queria tá chapada! Você sabia que eu e os enfermeiros temos um caso de amor? Eu nunca sei com quem eu vou acordar amanhã. Ha! Ha! Ha! Ha!
Camila foi até o rádio e mudou para uma estação de “dance”.
— Vamos dançar!!
Num instante, todos os loucos estavam dançando com ela.
Catarina fala com Luciano:
— Não liga não, às vezes acontece essas coisas por aqui.
Na entrada da sala principal, um enfermeiro comenta com o outro:
— Está acontecendo alguma coisa lá dentro.
— Ah, os malucos devem estar dançando de novo.
Parte 4 (O boneco suicida)
Luciano reparou que apenas um garoto não dançava. Ele ficava encostado na parede, e segurava um estranho boneco. Era um ventríloquo. Chegando perto do garoto, Luciano pergunta:
-— Por que você não dança como os outros?
Ao que ele responde:
— Bonecos não dançam.
O estranho garoto usava um grande chapéu que cobria o seu rosto, e ficava sempre de cabeça baixa quando conversava com alguém. Ao responder a pergunta de Luciano, era o boneco que falava, o garoto parecia morto.
— É, bonecos não dançam. Você é legal, gostei de você. Qual é seu nome?
— Meu nome é Boneco. Ouvi sua conversa com a Catarina e o Afrânio. Quero ir com você também, cansei de ser boneco!
— Como assim? Você não gosta de ser boneco?
— Nunca gostei. Sempre me diziam o que fazer, nunca me perguntavam o que eu queria fazer. Me colocaram numa escola de basquete, eu odeio basquete! Também nunca gostei da piscina do clube, será que eles não entendem que eu tenho vergonha? Nunca me deixaram ler o que eu queria, eu só podia ler as matérias da escola. Eu tinha que ter uma namorada, eles queriam isso, mas eu não era tão safado como os garotos que conheci. Queriam sempre que eu participasse das festas deles, mas não entendiam minha timidez. Por isso meu nome é Boneco! Porque boneco só faz o que os outros querem que ele faça.
— Foi por isso que você veio parar aqui? Porque é um boneco?
— Não. Me mandaram pra cá porque eu estava brincando de artista.
— E daí? Não vejo nada de errado nisso.
— Eu também não! Era tudo de mentirinha, eu só estava brincando de artista suicida, só isso! Me leva com você?
— Claro Boneco, você é mais um que vai ser salvo.
— Boneco agradece.
Parte 5 (O Revoltado)
No dia seguinte tudo parecia calmo, mas Catarina, Afrânio, Camila, Luciano e o Boneco conspiravam em segredo sobre o grande dia em que o anjo viria para salvá-los. Catarina falava baixo com Luciano para que os enfermeiros não ouvissem:
— Luciano, devemos chamar o Revoltado para vir com a gente. Ele vai sair do quarto da solidão hoje.
— Quarto da solidão? – Luciano não entende a expressão.
— Sim, é como chamamos o quarto onde ficam as pessoas descontroladas. Quem se descontrola fica lá durante uma semana para se acalmar.
— Tudo bem, vamos esperar ele sair.
O Revoltado saiu do quarto da solidão na parte da tarde. Sua aparência era a de um rapaz rabugento. Tinha longos cabelos e usava tatuagens por todo o corpo. Carregava várias páginas de revistas nas mãos. Cada página tinha a foto de um artista famoso do rock. Luciano e Camila foram falar com ele, mas antes de lhe dirigirem qualquer palavra, o Revoltado atacava as páginas de revista, rasgando-as com as mãos e os dentes e pisando nas que caíam no chão.
Camila comenta:
— Cretino! Experimentou uma das boas e não me disse nada.
Luciano foi o primeiro a falar com Revoltado:
— O que eles te fizeram para você odiar tanto eles?
Revoltado olha para Luciano surpreso.
— Não acredito! Você é cego?! Será que não vê que eles agora são a moda que enriquece o sistema? Esses filhos de uma puta cantam apenas para o comércio, esqueceram o motivo da nossa luta. Pegam um vocalista bonitinho, dão aulas de guitarra para ele e pronto! Ele é de uma banda cheia de fãs burras que só o admiram pela aparência. Tem outros idiotas que fazem bandas só para aparecer, criam umas letras que qualquer garotinho de oito anos consegue fazer, fazem um som sem originalidade, pouco trabalhado e sem dedicação, e já chamam esse som pelo nome de algum rótulo que está na moda! Esses porras! Eu não quero mais saber desse rock sem atitude que ouvimos hoje. Foda-se a revolta, o rock morreu! Vamos nos entregar aos vícios, aos modismos, às festas em que comemoramos nossa própria decadência. Pois é isso o que ouvimos hoje.
Quando Revoltado finalmente pára e respira, Luciano (pasmado) fala com ele:
— Meu nome é Luciano. Um anjo veio para nos salvar.
Revoltado, um pouco mais calmo, lhe diz:
— Eu sei. Fragmentada me falou. A gente só tava esperando você chegar.
— Quem é Fragmentada? – Pergunta Luciano.
— Descubra você mesmo. – Revoltado aponta para uma mulher sentada no canto da sala.
Parte 6 (Fragmentada)
Aparentemente normal, de cabelos penteados e bem vestida. Essa era Fragmentada.
— Oi. – Disse Luciano.
— Você é o garoto que fala com o anjo que veio para nos salvar, não é? - perguntou Fragmentada.
— Sim, sou eu. Por que seu nome é “Fragmentada”?
— Você quer mesmo saber?
Luciano fez que sim.
— Pois bem, vou lhe contar.
Nesse momento todos se aproximaram, pois estavam curiosos sobre a história daquela mulher que decapitou um homem. Uma mulher muito calada, que agora se abria com Luciano. Ela começou:
— Sabe, eu fui uma mulher muito rica. Era muito bajulada por todos, mas não sabia que ao meu redor tinha tantos hipócritas. Ah... Se a felicidade está no dinheiro, quero que me contem quem a encontrou, porque eu só achei decepções. Eram muitas as pessoas ao meu redor que me pediam ajuda: parentes, amigos, namorado... Como empresária muito bem sucedida, eu ajudava a todos. Pagava colégios, oferecia trabalho em minha empresa, fazia empréstimos, enfim, ajudava muita gente. Mas todos que eu ajudava estavam de olho em meu dinheiro, conspiravam contra mim, tinham inveja, faziam planos para se apoderar do que eu tinha. E conseguiram. Alguns me processaram por pequenos erros que cometi, outros me roubaram descaradamente. Gente do meu próprio sangue, gente que eu confiava, acredita? E já na falência, sem ter para onde ir, todos me recusavam uma simples ajuda. Na rua da amargura, fiquei só e abandonada. E quando tudo o que me restava era o consolo do meu namorado, descobri que ele me traía. Fiquei louca! Como ele pôde fazer isso comigo? Eu queria me casar com ele! Mas o pior ainda estava para acontecer. O tempo foi me deixando fraca, descobri que estava doente, mas não sabia o que era. O médico me disse que era AIDS. Aquilo foi o ponto final em minha sanidade. Carlos, meu namorado, foi o primeiro e único a fazer amor comigo, e a doença que ele tinha foi adquirida através da pessoa com quem ele me traía. Depois do que fiz me internaram neste hospício. Louca? Eu? Quem não ficaria? Quem?!
— E o que você fez? – Perguntou Luciano.
— Você não soube, cara? – Interrompeu Revoltado. – Ela decapitou o namorado dela e mandou os pedaços para cada pessoa que sacaneou ela, todos os pedaços pelo correio cara! E depois tentou se matar várias vezes, falava de crise existencial, um papo que ninguém entendia. Essa sim tem atitude! Você sabia que ela ficou no quarto da solidão por dois meses?
Catarina mostrou-se curiosa:
— Crise existencial, ela veio pra cá muito acabada, e não parava de dizer que era uma fragmentada, é por isso que a gente a chama de fragmentada. Mas por que você dizia sempre que era uma fragmentada?
Fragmentada respondeu olhando para o chão, triste e reflexiva:
— Tudo que eu era, tudo que eu tinha, que eu conquistei e construí, foi dividido e dado para todas as pessoas que me destruíram. Cada pedaço meu agora pertence aos meus inimigos. Até a minha vida foi destruída. Fui fragmentada...
Luciano pôs a mão no ombro dela querendo confortá-la.
— Fragmentada...
Nesse momento todos queriam confortá-la. E ela, para finalizar, apenas disse:
— Temos que seguir esse anjo. Eu também o vi. Foi lá no precipício, numa das minhas tentativas fracassadas de me suicidar. Ele disse que o nosso destino é inevitável.
Todos se olharam, dessa vez mais decididos que nunca.
Parte 7 (A tristeza em seus corações, sou eu...)
Camila agia de um modo estranho, estava tremendo. Dizia que alguém se aproximava, mas não sabia quem era. Só dizia que era alguém muito triste.
Luciano e Catarina tentavam confortá-la. Revoltado dizia: deve ser as drogas. Afrânio não concordava: Ela não toma drogas aqui dentro, idiota.
“Estou recebendo alguém em minha mente, é o anjo...”.
Todos se aproximaram dela. Acreditavam, eram “loucos”.
E Camila, ou melhor, o anjo, pôs-se a falar:
— O dia está se aproximando, e nessa jornada gostaríamos de prolongar a dor coletiva que existe entre nós. Mas não podemos suportar mais, pois não somos deste mundo. Aqui nos impedem de falar, aqui nunca temos razão em nada. Aqui o nosso sangue vale mais que ouro. Aqui o amor dura muito pouco, não é real. Só o ódio é eterno. Mas finalmente seremos livres, embriagados em nossa própria genialidade. A tristeza em seus corações, sou eu... Não estou em paz com o sofrimento e desejo de vingança de vocês. Vamos juntos, de mãos dadas, para a eternidade. Vamos juntos, sem segredos. Vamos com nossas ingenuidades que as pessoas chamam de mentiras, com nossas lágrimas, confiando uns nos outros no dia que se aproxima e que será nosso fim.
Camila acorda da possessão e todos ficam eufóricos. “Sim, vamos, vamos!” A confusão é geral, todos perdem o controle e começam a quebrar tudo que vêem pela frente. Os enfermeiros chegam a tempo de aplicar os sedativos e pôr cada um em sua camisa de força. Mas agora nada será capaz de controlar a euforia deles. Começam a falar palavrões, a rir uns dos outros, a pronunciar vozes estranhas, e a noite vira um inferno...
Durante a noite apenas um enfermeiro ficava de plantão. O restante dos funcionários dormia. E a bagunça durante a noite só foi possível porque Camila estava trancada no quarto com o enfermeiro. Eles a usavam, e em troca ela ganhava sedativos. Já estava ficando viciada nisso. Ela dizia: “Fazer o quê? Eu não gosto deles, mas eles gostam de mim!”.
Revoltado consegue fugir. Mas antes Luciano lhe dá uma lista de objetos para que ele traga a todos. São os objetos que o anjo, telepaticamente, lhe disse que ele e seus amigos precisavam. “Ele vai conseguir”, dizia Catarina. E da alta janela, eles observavam Revoltado partindo lá embaixo, no quintal do hospício. Ele prometeu trazer os objetos ainda naquela noite, pois o “grande dia” seria naquela noite.
Enquanto isso, Afrânio espiava pelo buraco da fechadura o enfermeiro e Camila na cama. Fragmentada aproximou-se e perguntou o que ele estava espiando. Ele lamentava: “Ela é tão bonita, por que deixa que a usem assim?”. Ao que Fragmentada responde: “Estamos num mundo sujo, como você mesmo diz. Enquanto vivermos aqui o melhor é nos entregarmos à podridão. Hoje será o nosso último dia nesse lodaçal. Venha, vamos com elegância nos despedir da decadência”.E Fragmentada beija Afrânio. O beijo é aprovado e comemorado por todos.
Os internados ali eram muitos. Nomes já não eram importantes. O importante é que todos se amavam, todos se entendiam. Eram irmãos na loucura, que para eles era um elogio, sinônimo de genialidade.
Catarina voltou-se para Luciano e disse:
— Luciano, você foi legal comigo. Foi paciente, me entendeu. Meu padrasto sempre me maltratava, você não. Você foi um cavalheiro comigo. Quando formos nos encontrar com o anjo, quero que você vá de mãos dadas comigo. – Catarina não segurou a emoção e pôs-se a chorar.
— Tudo bem Catarina, eu vou estar ao seu lado quando a hora chegar. – E os dois se abraçaram como dois namoradinhos ingênuos.
Ventríloquo olhou para seu boneco e também o abraçou. “Eu também te amo, meu boneco”.
Parte 8 (O último discurso)
Camila sai do quarto e deixa o enfermeiro dormindo na cama dele. “Eu pus sedativos no suco dele. Vai dormir a noite toda”. Dizia ela ofegante. “E aí? Revoltado já voltou com os objetos que a gente precisa?”.
— Ainda não. – Responde Luciano enquanto olhava pela janela. – Mas já deve estar chegando.
Então Luciano pede para que todos se aproximem. Sobe numa mesa e faz seu discurso:
— Senhoras e senhores, já é hora de provarmos a nós mesmos que não precisamos provar nada a ninguém, pois estamos abandonando esse mundo de cobranças para vivermos eternamente num mundo bem melhor que o anjo nos prometeu. Só peço a todos que não fiquem tristes, sei que tudo parece estar confuso, que nossos delírios perturbam nossas cabeças, mas não é motivo para ter medo ou se sentir triste. Por isso, peço a todos vocês que digam o que quiserem, que desabafem tudo o que ainda falta desabafar. Mas por favor, NÃO DIGAM ADEUS! Estamos todos juntos nisso, e permaneceremos juntos eternamente, pois somos iguais e habitantes de um mesmo mundo.
Todos aplaudem aquele que seria o último discurso ouvido por eles neste mundo. E então, eis que surge Revoltado, com todos os objetos que estavam na lista.
Parte 9 (suicídio coletivo)
Já era dia. Pela manhã os funcionários vão assumindo seus postos no hospício. E se deparam com uma surpresa que os deixam perplexos. Na sala do hospício, todos os loucos estavam caídos. Alguns com uma faca no peito, outros com uma corda no pescoço. “Como eles conseguiram essas coisas?”, perguntavam uns para os outros.
Os parentes dos suicidas chegavam e rodeavam o hospício. Todos foram avisados para recolherem os corpos para o enterro. Estavam inconformados, confusos. “O que aconteceu?”, perguntavam desesperados. Um simples tratamento psicológico que se tornou uma tragédia para os parentes, conhecidos e amigos mais próximos. A cidade inteira via-se com medo. Era o terror do suicídio que voltava para atormentar a cidade, e dessa vez coletivo, mais aterrador que antes.
O prefeito foi pessoalmente ver o fato tão polêmico e assustador.
E de repente alguém grita:
— Olhem! São eles!!!
Incrível! Fantástico! Sobrenatural! Mesmo com os cadáveres à vista os mortos caminhavam em fila para o alto da montanha. As pessoas correram atrás deles, algumas desmaiaram. Queriam ver para onde os supostos mortos estavam indo, chamavam por eles, mas a marcha fúnebre prosseguia e gritava em uníssono: “Não precisamos de ajuda, não precisamos de apoio, não precisamos que ninguém tenha pena da gente, já temos o nosso próprio mundo, e nele vocês morrem torturados...” Gritavam assim repetidamente, e esse grito coletivo parecia mais uma canção de despedida. Todos sabiam para onde eles estavam indo, ou desconfiavam.
Enfim, chegaram no precipício já conhecido por tantos suicídios. As pessoas que seguiram a marcha fúnebre dos suicidas, quando viram que eles pararam diante do muro, argumentaram entre si: “Eles não vão prosseguir mais, não podem passar pelo muro”. Mas essas pessoas estavam enganadas. Em fila, eles atravessavam o muro. Eram fantasmas. E cantavam: “Não precisamos de ajuda, não precisamos de apoio...” Um por um, jogando-se do precipício. O muro já não era mais um empecilho. E os dois últimos fantasmas, Luciano e Catarina, partem de mãos dadas. Mas não foi só aquela visão aterradora que escandalizou o povo daquela cidade. De repente, para surpresa geral, um anjo surge do alto do muro. Ele aponta para a frase que estava escrita no muro e se despede, mergulhando no abismo do precipício.
O prefeito da cidade já estava ficando louco com aquela história toda. Primeiro vem um caso de suicídio fora do normal: um adolescente joga-se do alto de um precipício por causa de um amor não correspondido; logo a seguir, a jovem, sentindo-se culpada, faz o mesmo, apesar das suspeitas apontarem como culpado um amigo dela. Depois, como se já não bastasse, várias pessoas de diversas idades fazem o mesmo. Ninguém sabe explicar o motivo de tantos suicídios no mesmo local, alguns dizem que a vontade já existia há algum tempo dentro dessas pessoas, só faltava um incentivo para tal loucura; outros preferem dizer que o precipício é amaldiçoado, um lugar maldito que deve ter seu acesso fechado. E era isso que incomodava o prefeito, as pessoas cobravam dele uma providência, pois o tempo passava e mais suicídios eram cometidos no mesmo local. A cada dia um caso diferente: um idoso cansado da vida, uma criança rejeitada, uma mulher em depressão, um religioso fanático se sacrificando para seu deus, um empresário mal sucedido, um louco, etc. O caso mais estranho foi o de um senhor que passava por ali apenas para conhecer o local tão afamado. Ele tentou se jogar do precipício, mas foi impedido por sua mulher, que o agarrou com força antes que ele avançasse em direção à morte. Quando perguntaram por que ele tentou fazer aquilo, ele disse que não sabia o porquê de ter tomado aquela decisão suicida. Apenas queria se jogar do precipício quando viu aquela paisagem, o mar batendo nas rochas lá embaixo, numa grande e impressionante altura. Disse ainda ser possuído por uma vontade avassaladora de se jogar ao ver que se encontrava naquela altura, e apenas isso! E o mais impressionante era que esse homem não tinha nenhum antecedente suicida, nem mesmo qualquer acontecimento em sua vida que o denunciasse por algum tipo de crise existencial. Tal fato só aumentava ainda mais a insatisfação das pessoas que moravam naquela cidade, e o prefeito não se mostrava interessado pelas superstições daquelas pessoas. Mas como os casos de suicídio eram cada vez mais numerosos, houve manifestações e protestos dificilmente de serem ignorados. O caso já estava ganhando as manchetes dos jornais.
O precipício ficava num lugar calmo e bonito, entre as serras da cidade. Para chegar lá era preciso subir uma grande montanha através de uma trilha que levava até o ponto mais alto da serra. Era um local ermo, bem afastado. Algumas pessoas diziam ter visto fantasmas passando por ali, principalmente os fantasmas dos suicidas. À noite ninguém se atrevia em ir até lá. Foi durante a noite que ocorreu um dos primeiros suicídios nesse local, e isso alimentava ainda mais o medo das pessoas supersticiosas da cidade.
Algumas semanas depois dos manifestos, no precipício, um grande aglomerado de pessoas parava para ver o maior feito do prefeito sendo realizado naquela cidade. Estava sendo construído um enorme muro no precipício, de grande altura, impossível de ser escalado, e de enorme largura, de uma ponta a outra do precipício, delimitado por grandes rochas. A construção intrigava as pessoas. E se não desse certo? Os suicidas poderiam muito bem pular de outro lugar! Mas se desse certo, o prefeito ganharia pontos com seu povo. As respostas viriam com o tempo, e as pessoas estavam ansiosas.
A construção não demorou muito a ficar pronta. Quando finalmente estava terminada, um rapaz que lá chegou admirou-se com o enorme muro. E em pânico gritou: “NÃÃÃO!” Os homens que trabalhavam na construção do muro levaram um susto com o rapaz. Um deles disse:
— Olha! Não é aquele cara que tentou se jogar daqui várias vezes, aquele do jornal, lembra?
Outro homem disse:
— Sim é ele! Eu lembro dele. Tava no jornal que ele fugiu do hospício. Olha ele aí! Aí maluco, se liga no “recado” que eu tenho pra você. (pegou um carvão e começou a escrever no muro): “SEJA BEM VINDO AO PESADELO DA REALIDADE”.
Todos começaram a rir, e o rapaz foi correndo embora, lamentando-se desesperadamente.
Os homens da obra se divertiam com a cena.
— Vai maluco! Demorou dois meses pra ficar pronto, pra nunca mais! Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
A construção deu certo. Nunca mais houve histórias de suicidas na cidade. Nenhum caso tinha sido registrado desde a construção do muro. A cidade normalizou-se novamente.
Enquanto isso, Luciano era analisado por um psicólogo.
— Luciano, você ainda acredita ter visto um anjo no precipício?
— Sim doutor, ele veio para levar os escolhidos.
— E que escolhidos são esses?
— São os incompreendidos. Eles irão para um mundo onde não serão mais torturados.
— Torturados? Quem os tortura?
— Vocês, todos vocês da cidade.
— E o anjo veio te buscar também?
— Sim! Ele veio me salvar... (Luciano olhava para o nada, imaginando o que tinha acabado de dizer).
O psicólogo deixou Luciano sozinho e foi conversar com seu pai.
— Senhor, sugiro deixar seu filho um tempo comigo, internado. Nas condições em que ele se encontra será preciso passar por um tratamento.
O pai de Luciano estava inconformado, mas concordava com o psicólogo. Ele já tinha perdido a conta de quantas vezes impediu seu filho de ir até o precipício tentar se matar. Mesmo o muro que havia sido construído não o tranqüilizava.
— Doutor... Eu não entendo como ele foi ficar assim. Era um jovem tão normal. De onde ele tirou essas idéias? Traga-o curado doutor! Curado!
— Acalme-se, senhor. Seu filho vai passar por um tratamento até melhorar.
O pai de Luciano deixou o psicólogo ir. Ficou na janela observando seu filho partir aos gritos, sendo arrastado por enfermeiros até a ambulância. E não teve coragem de continuar na janela olhando tal cena. Recolheu-se e sentou amargurado em seu sofá.
Luciano gritava inconformado:
— Eu não sou louco! Eu vi! Eu vi! Ele vai me salvar, o anjo vai me salvar! Vocês vão ver! Vocês vão ver!
Parte 2 (O Pessimista)
Luciano sentou e encostou-se à parede, aparentemente triste, não se conformava em estar preso naquele maldito hospício cheio de loucos. Uma garota, que aparentava ter mais ou menos a mesma idade (18 anos), foi sentar-se perto dele para se apresentar.
— Oi, meu nome é Catarina. Sou uma assassina. Você matou alguém?
Luciano mostrava-se entediado. A garota tinha os cabelos ruivos desgrenhados, era bonita, mas seu rosto parecia muito maltratado por olheiras.
Ele nem a olhou, mas respondeu:
— Não.
Catarina não se mostrava satisfeita:
— Qual é seu nome?
— Luciano.
— Por que você está aqui?
— Vi um anjo. – Olhou para Catarina, pensando provocar um riso ou deboche, mas ela permanecia olhando para ele com grande atenção. Então desviou o olhar, como quem estava perdendo tempo. Ora, ela era uma louca! – E você?
— Vi um demônio.
— Quê?!
— Um demônio! Sabe, meu padrasto sempre vinha em minha cama quando eu estava dormindo. Mas não era ele, era um demônio. Eu sei, eu vi!
— Não era não, era um tarado.
— Não, era um demônio mesmo! Eu vi os olhos vermelhos dele, e ele pegava fogo. É verdade!
— E o que ele fazia? – Perguntou Luciano, com o pouco de paciência que lhe restava.
— Pecava. Ele era o demônio do pecado. E o seu anjo, o que ele faz?
Não tinha nada para fazer mesmo. Luciano então resolveu conversar.
— Meu anjo veio para salvar os torturados como eu.
— Você acha que ele pode me salvar também?
Luciano pára pra pensar. Surpreende-se com a pergunta.
— Claro! Ele vem para salvar todos os torturados.
Os dois trocam sorrisos, como se tivessem chegado a uma conclusão. Luciano então volta sua atenção para um homem, aparentando ter uns trinta anos, jogado no chão, com as roupas rasgadas, e profundamente triste. E pergunta:
— Quem é ele?
— Aquele é o Afrânio. A esposa dele pediu o divórcio e ele culpa o mundo por isso. Você acha que seu anjo pode salvar ele também?
— Não sei. Vamos falar com ele!
E foram os dois engatinhando até Afrânio.
— Afrânio, esse é meu amigo Luciano. O anjo dele veio salvar a gente, você não quer ser salvo também?
— Ah, crianças ingênuas! Como podem acreditar numa bobagem dessas? É o mundo que precisa ser salvo, e não a gente!
Luciano então lhe pergunta:
— Por que a sua mulher quis se separar de você?
— Por causa do mundo! Sabe Luciano, foi o mundo que me separou dela, eu fui corrompido.
— Corrompido? – Luciano não entende.
— Sim meu amiguinho, corrompido. Eu era puro, tinha uma inocência igual à tua, mas o mundo me roubou isso. Minha mulher vivia me pedindo declarações de amor, palavras de alegria. Mas eu vivia dizendo a ela: “Amor, como posso lhe dizer coisas alegres e cheias de amor num mundo como esse?” Ela nunca me entendia.
Luciano continuava curioso.
— E o que você dizia?
— Ah, eu dizia apenas a verdade: “Minha coluna dói, estou cansado, estou desempregado, preciso de um banho, o remédio está acabando, etc.”.
— Acho que você não precisava dizer isso quando ela precisava de umas palavras de amor. - Disse Catarina.
— Mas o que você queria que eu dissesse num mundo tão soturno como esse?
Luciano interrompeu:
— Mas por que você nunca disse o que ela queria ouvir?
— Porque nós vivemos num grande e podre mundo sujo. Onde as pessoas são um monte de vermes, e o mundo é um lodaçal em que nos afundamos cada vez mais.
Então Luciano lhe diz:
— Meu anjo vem buscar as pessoas torturadas para viver com ele num mundo perfeito, onde não seremos mais torturados, pois lá os torturados são aqueles que nos torturam aqui.
— E onde fica esse mundo?
— No precipício.
— Já ouvi falar, mas acho que você não sabia que agora tem um muro lá.
— Isso não será capaz de impedir meu anjo. Ele é mais forte que mil muros. Você gostaria de vir com a gente?
Afrânio olha para os dois durante um tempo, e depois responde:
— Tudo bem garoto, não tenho nada a perder mesmo.
Catarina se entusiasma:
— Legal, agora somos um trio! Vamos falar com a Camila também, ela é muito legal!
— A Camila é uma drogada. – Protestou Afrânio.
— Tudo bem, quanto mais pessoas a serem salvas, melhor. – Disse Luciano.
Parte 3 (A festa das drogas)
Eles se aproximaram de Camila. Ela tinha os cabelos pintados de verde e falava sozinha. Catarina foi a primeira a falar com ela:
— Camila, temos uma novidade para você...
Camila interrompeu:
— Espere, espere! Tô tentando ouvir o que a formiga tá falando.
— Camila, formigas não falam. – Disse Catarina aborrecida.
— Claro que fala sua doida! Ela me deu altos conselhos. Me disse que a vida é uma merda e que devemos dar uma grande festa de arromba. Pois o mundo está aí para impedir que sejamos diferentes das regras impostas pelo sistema, e dando uma festa todos podem ser iguais. Ninguém se importa com nada quando esquece seus problemas e mergulha nos prazeres da vida. O resto são coisas muito grandes, é apenas o resto.
— A formiga disse tudo isso? – Perguntou Afrânio.
— Claro que disse. Você por acaso tá me vendo com drogas?
Luciano diz:
— Existe um mundo onde você pode ser imortal. Nós vamos para esse mundo, você quer vir com a gente?
— Já é! Pô garoto, por que você não me avisou isso antes? Vamos comemorar! Mas que droga, como eu queria tá chapada! Você sabia que eu e os enfermeiros temos um caso de amor? Eu nunca sei com quem eu vou acordar amanhã. Ha! Ha! Ha! Ha!
Camila foi até o rádio e mudou para uma estação de “dance”.
— Vamos dançar!!
Num instante, todos os loucos estavam dançando com ela.
Catarina fala com Luciano:
— Não liga não, às vezes acontece essas coisas por aqui.
Na entrada da sala principal, um enfermeiro comenta com o outro:
— Está acontecendo alguma coisa lá dentro.
— Ah, os malucos devem estar dançando de novo.
Parte 4 (O boneco suicida)
Luciano reparou que apenas um garoto não dançava. Ele ficava encostado na parede, e segurava um estranho boneco. Era um ventríloquo. Chegando perto do garoto, Luciano pergunta:
-— Por que você não dança como os outros?
Ao que ele responde:
— Bonecos não dançam.
O estranho garoto usava um grande chapéu que cobria o seu rosto, e ficava sempre de cabeça baixa quando conversava com alguém. Ao responder a pergunta de Luciano, era o boneco que falava, o garoto parecia morto.
— É, bonecos não dançam. Você é legal, gostei de você. Qual é seu nome?
— Meu nome é Boneco. Ouvi sua conversa com a Catarina e o Afrânio. Quero ir com você também, cansei de ser boneco!
— Como assim? Você não gosta de ser boneco?
— Nunca gostei. Sempre me diziam o que fazer, nunca me perguntavam o que eu queria fazer. Me colocaram numa escola de basquete, eu odeio basquete! Também nunca gostei da piscina do clube, será que eles não entendem que eu tenho vergonha? Nunca me deixaram ler o que eu queria, eu só podia ler as matérias da escola. Eu tinha que ter uma namorada, eles queriam isso, mas eu não era tão safado como os garotos que conheci. Queriam sempre que eu participasse das festas deles, mas não entendiam minha timidez. Por isso meu nome é Boneco! Porque boneco só faz o que os outros querem que ele faça.
— Foi por isso que você veio parar aqui? Porque é um boneco?
— Não. Me mandaram pra cá porque eu estava brincando de artista.
— E daí? Não vejo nada de errado nisso.
— Eu também não! Era tudo de mentirinha, eu só estava brincando de artista suicida, só isso! Me leva com você?
— Claro Boneco, você é mais um que vai ser salvo.
— Boneco agradece.
Parte 5 (O Revoltado)
No dia seguinte tudo parecia calmo, mas Catarina, Afrânio, Camila, Luciano e o Boneco conspiravam em segredo sobre o grande dia em que o anjo viria para salvá-los. Catarina falava baixo com Luciano para que os enfermeiros não ouvissem:
— Luciano, devemos chamar o Revoltado para vir com a gente. Ele vai sair do quarto da solidão hoje.
— Quarto da solidão? – Luciano não entende a expressão.
— Sim, é como chamamos o quarto onde ficam as pessoas descontroladas. Quem se descontrola fica lá durante uma semana para se acalmar.
— Tudo bem, vamos esperar ele sair.
O Revoltado saiu do quarto da solidão na parte da tarde. Sua aparência era a de um rapaz rabugento. Tinha longos cabelos e usava tatuagens por todo o corpo. Carregava várias páginas de revistas nas mãos. Cada página tinha a foto de um artista famoso do rock. Luciano e Camila foram falar com ele, mas antes de lhe dirigirem qualquer palavra, o Revoltado atacava as páginas de revista, rasgando-as com as mãos e os dentes e pisando nas que caíam no chão.
Camila comenta:
— Cretino! Experimentou uma das boas e não me disse nada.
Luciano foi o primeiro a falar com Revoltado:
— O que eles te fizeram para você odiar tanto eles?
Revoltado olha para Luciano surpreso.
— Não acredito! Você é cego?! Será que não vê que eles agora são a moda que enriquece o sistema? Esses filhos de uma puta cantam apenas para o comércio, esqueceram o motivo da nossa luta. Pegam um vocalista bonitinho, dão aulas de guitarra para ele e pronto! Ele é de uma banda cheia de fãs burras que só o admiram pela aparência. Tem outros idiotas que fazem bandas só para aparecer, criam umas letras que qualquer garotinho de oito anos consegue fazer, fazem um som sem originalidade, pouco trabalhado e sem dedicação, e já chamam esse som pelo nome de algum rótulo que está na moda! Esses porras! Eu não quero mais saber desse rock sem atitude que ouvimos hoje. Foda-se a revolta, o rock morreu! Vamos nos entregar aos vícios, aos modismos, às festas em que comemoramos nossa própria decadência. Pois é isso o que ouvimos hoje.
Quando Revoltado finalmente pára e respira, Luciano (pasmado) fala com ele:
— Meu nome é Luciano. Um anjo veio para nos salvar.
Revoltado, um pouco mais calmo, lhe diz:
— Eu sei. Fragmentada me falou. A gente só tava esperando você chegar.
— Quem é Fragmentada? – Pergunta Luciano.
— Descubra você mesmo. – Revoltado aponta para uma mulher sentada no canto da sala.
Parte 6 (Fragmentada)
Aparentemente normal, de cabelos penteados e bem vestida. Essa era Fragmentada.
— Oi. – Disse Luciano.
— Você é o garoto que fala com o anjo que veio para nos salvar, não é? - perguntou Fragmentada.
— Sim, sou eu. Por que seu nome é “Fragmentada”?
— Você quer mesmo saber?
Luciano fez que sim.
— Pois bem, vou lhe contar.
Nesse momento todos se aproximaram, pois estavam curiosos sobre a história daquela mulher que decapitou um homem. Uma mulher muito calada, que agora se abria com Luciano. Ela começou:
— Sabe, eu fui uma mulher muito rica. Era muito bajulada por todos, mas não sabia que ao meu redor tinha tantos hipócritas. Ah... Se a felicidade está no dinheiro, quero que me contem quem a encontrou, porque eu só achei decepções. Eram muitas as pessoas ao meu redor que me pediam ajuda: parentes, amigos, namorado... Como empresária muito bem sucedida, eu ajudava a todos. Pagava colégios, oferecia trabalho em minha empresa, fazia empréstimos, enfim, ajudava muita gente. Mas todos que eu ajudava estavam de olho em meu dinheiro, conspiravam contra mim, tinham inveja, faziam planos para se apoderar do que eu tinha. E conseguiram. Alguns me processaram por pequenos erros que cometi, outros me roubaram descaradamente. Gente do meu próprio sangue, gente que eu confiava, acredita? E já na falência, sem ter para onde ir, todos me recusavam uma simples ajuda. Na rua da amargura, fiquei só e abandonada. E quando tudo o que me restava era o consolo do meu namorado, descobri que ele me traía. Fiquei louca! Como ele pôde fazer isso comigo? Eu queria me casar com ele! Mas o pior ainda estava para acontecer. O tempo foi me deixando fraca, descobri que estava doente, mas não sabia o que era. O médico me disse que era AIDS. Aquilo foi o ponto final em minha sanidade. Carlos, meu namorado, foi o primeiro e único a fazer amor comigo, e a doença que ele tinha foi adquirida através da pessoa com quem ele me traía. Depois do que fiz me internaram neste hospício. Louca? Eu? Quem não ficaria? Quem?!
— E o que você fez? – Perguntou Luciano.
— Você não soube, cara? – Interrompeu Revoltado. – Ela decapitou o namorado dela e mandou os pedaços para cada pessoa que sacaneou ela, todos os pedaços pelo correio cara! E depois tentou se matar várias vezes, falava de crise existencial, um papo que ninguém entendia. Essa sim tem atitude! Você sabia que ela ficou no quarto da solidão por dois meses?
Catarina mostrou-se curiosa:
— Crise existencial, ela veio pra cá muito acabada, e não parava de dizer que era uma fragmentada, é por isso que a gente a chama de fragmentada. Mas por que você dizia sempre que era uma fragmentada?
Fragmentada respondeu olhando para o chão, triste e reflexiva:
— Tudo que eu era, tudo que eu tinha, que eu conquistei e construí, foi dividido e dado para todas as pessoas que me destruíram. Cada pedaço meu agora pertence aos meus inimigos. Até a minha vida foi destruída. Fui fragmentada...
Luciano pôs a mão no ombro dela querendo confortá-la.
— Fragmentada...
Nesse momento todos queriam confortá-la. E ela, para finalizar, apenas disse:
— Temos que seguir esse anjo. Eu também o vi. Foi lá no precipício, numa das minhas tentativas fracassadas de me suicidar. Ele disse que o nosso destino é inevitável.
Todos se olharam, dessa vez mais decididos que nunca.
Parte 7 (A tristeza em seus corações, sou eu...)
Camila agia de um modo estranho, estava tremendo. Dizia que alguém se aproximava, mas não sabia quem era. Só dizia que era alguém muito triste.
Luciano e Catarina tentavam confortá-la. Revoltado dizia: deve ser as drogas. Afrânio não concordava: Ela não toma drogas aqui dentro, idiota.
“Estou recebendo alguém em minha mente, é o anjo...”.
Todos se aproximaram dela. Acreditavam, eram “loucos”.
E Camila, ou melhor, o anjo, pôs-se a falar:
— O dia está se aproximando, e nessa jornada gostaríamos de prolongar a dor coletiva que existe entre nós. Mas não podemos suportar mais, pois não somos deste mundo. Aqui nos impedem de falar, aqui nunca temos razão em nada. Aqui o nosso sangue vale mais que ouro. Aqui o amor dura muito pouco, não é real. Só o ódio é eterno. Mas finalmente seremos livres, embriagados em nossa própria genialidade. A tristeza em seus corações, sou eu... Não estou em paz com o sofrimento e desejo de vingança de vocês. Vamos juntos, de mãos dadas, para a eternidade. Vamos juntos, sem segredos. Vamos com nossas ingenuidades que as pessoas chamam de mentiras, com nossas lágrimas, confiando uns nos outros no dia que se aproxima e que será nosso fim.
Camila acorda da possessão e todos ficam eufóricos. “Sim, vamos, vamos!” A confusão é geral, todos perdem o controle e começam a quebrar tudo que vêem pela frente. Os enfermeiros chegam a tempo de aplicar os sedativos e pôr cada um em sua camisa de força. Mas agora nada será capaz de controlar a euforia deles. Começam a falar palavrões, a rir uns dos outros, a pronunciar vozes estranhas, e a noite vira um inferno...
Durante a noite apenas um enfermeiro ficava de plantão. O restante dos funcionários dormia. E a bagunça durante a noite só foi possível porque Camila estava trancada no quarto com o enfermeiro. Eles a usavam, e em troca ela ganhava sedativos. Já estava ficando viciada nisso. Ela dizia: “Fazer o quê? Eu não gosto deles, mas eles gostam de mim!”.
Revoltado consegue fugir. Mas antes Luciano lhe dá uma lista de objetos para que ele traga a todos. São os objetos que o anjo, telepaticamente, lhe disse que ele e seus amigos precisavam. “Ele vai conseguir”, dizia Catarina. E da alta janela, eles observavam Revoltado partindo lá embaixo, no quintal do hospício. Ele prometeu trazer os objetos ainda naquela noite, pois o “grande dia” seria naquela noite.
Enquanto isso, Afrânio espiava pelo buraco da fechadura o enfermeiro e Camila na cama. Fragmentada aproximou-se e perguntou o que ele estava espiando. Ele lamentava: “Ela é tão bonita, por que deixa que a usem assim?”. Ao que Fragmentada responde: “Estamos num mundo sujo, como você mesmo diz. Enquanto vivermos aqui o melhor é nos entregarmos à podridão. Hoje será o nosso último dia nesse lodaçal. Venha, vamos com elegância nos despedir da decadência”.E Fragmentada beija Afrânio. O beijo é aprovado e comemorado por todos.
Os internados ali eram muitos. Nomes já não eram importantes. O importante é que todos se amavam, todos se entendiam. Eram irmãos na loucura, que para eles era um elogio, sinônimo de genialidade.
Catarina voltou-se para Luciano e disse:
— Luciano, você foi legal comigo. Foi paciente, me entendeu. Meu padrasto sempre me maltratava, você não. Você foi um cavalheiro comigo. Quando formos nos encontrar com o anjo, quero que você vá de mãos dadas comigo. – Catarina não segurou a emoção e pôs-se a chorar.
— Tudo bem Catarina, eu vou estar ao seu lado quando a hora chegar. – E os dois se abraçaram como dois namoradinhos ingênuos.
Ventríloquo olhou para seu boneco e também o abraçou. “Eu também te amo, meu boneco”.
Parte 8 (O último discurso)
Camila sai do quarto e deixa o enfermeiro dormindo na cama dele. “Eu pus sedativos no suco dele. Vai dormir a noite toda”. Dizia ela ofegante. “E aí? Revoltado já voltou com os objetos que a gente precisa?”.
— Ainda não. – Responde Luciano enquanto olhava pela janela. – Mas já deve estar chegando.
Então Luciano pede para que todos se aproximem. Sobe numa mesa e faz seu discurso:
— Senhoras e senhores, já é hora de provarmos a nós mesmos que não precisamos provar nada a ninguém, pois estamos abandonando esse mundo de cobranças para vivermos eternamente num mundo bem melhor que o anjo nos prometeu. Só peço a todos que não fiquem tristes, sei que tudo parece estar confuso, que nossos delírios perturbam nossas cabeças, mas não é motivo para ter medo ou se sentir triste. Por isso, peço a todos vocês que digam o que quiserem, que desabafem tudo o que ainda falta desabafar. Mas por favor, NÃO DIGAM ADEUS! Estamos todos juntos nisso, e permaneceremos juntos eternamente, pois somos iguais e habitantes de um mesmo mundo.
Todos aplaudem aquele que seria o último discurso ouvido por eles neste mundo. E então, eis que surge Revoltado, com todos os objetos que estavam na lista.
Parte 9 (suicídio coletivo)
Já era dia. Pela manhã os funcionários vão assumindo seus postos no hospício. E se deparam com uma surpresa que os deixam perplexos. Na sala do hospício, todos os loucos estavam caídos. Alguns com uma faca no peito, outros com uma corda no pescoço. “Como eles conseguiram essas coisas?”, perguntavam uns para os outros.
Os parentes dos suicidas chegavam e rodeavam o hospício. Todos foram avisados para recolherem os corpos para o enterro. Estavam inconformados, confusos. “O que aconteceu?”, perguntavam desesperados. Um simples tratamento psicológico que se tornou uma tragédia para os parentes, conhecidos e amigos mais próximos. A cidade inteira via-se com medo. Era o terror do suicídio que voltava para atormentar a cidade, e dessa vez coletivo, mais aterrador que antes.
O prefeito foi pessoalmente ver o fato tão polêmico e assustador.
E de repente alguém grita:
— Olhem! São eles!!!
Incrível! Fantástico! Sobrenatural! Mesmo com os cadáveres à vista os mortos caminhavam em fila para o alto da montanha. As pessoas correram atrás deles, algumas desmaiaram. Queriam ver para onde os supostos mortos estavam indo, chamavam por eles, mas a marcha fúnebre prosseguia e gritava em uníssono: “Não precisamos de ajuda, não precisamos de apoio, não precisamos que ninguém tenha pena da gente, já temos o nosso próprio mundo, e nele vocês morrem torturados...” Gritavam assim repetidamente, e esse grito coletivo parecia mais uma canção de despedida. Todos sabiam para onde eles estavam indo, ou desconfiavam.
Enfim, chegaram no precipício já conhecido por tantos suicídios. As pessoas que seguiram a marcha fúnebre dos suicidas, quando viram que eles pararam diante do muro, argumentaram entre si: “Eles não vão prosseguir mais, não podem passar pelo muro”. Mas essas pessoas estavam enganadas. Em fila, eles atravessavam o muro. Eram fantasmas. E cantavam: “Não precisamos de ajuda, não precisamos de apoio...” Um por um, jogando-se do precipício. O muro já não era mais um empecilho. E os dois últimos fantasmas, Luciano e Catarina, partem de mãos dadas. Mas não foi só aquela visão aterradora que escandalizou o povo daquela cidade. De repente, para surpresa geral, um anjo surge do alto do muro. Ele aponta para a frase que estava escrita no muro e se despede, mergulhando no abismo do precipício.
A frase? “Seja bem vindo ao pesadelo da realidade”.
FIM

1 comentários:
Desfecho carregado de ironia...
Beijos mil!!!
Postar um comentário